O argumento moral para a existência de Deus procura mostrar que a realidade de valores ou deveres morais objetivos oferece uma razão para afirmar a existência divina. Seu ponto de partida não é a origem do universo, mas a pergunta sobre o que torna uma ação realmente boa, má, correta ou obrigatória, independentemente da opinião de quem a pratica.
Existem formulações diferentes desse argumento. Este artigo concentra-se na versão dedutiva apresentada por William Lane Craig e nos problemas que ela precisa enfrentar. Essa delimitação permite distinguir o argumento de questões relacionadas, como a capacidade de pessoas sem religião agirem moralmente, a formação social de nossas crenças e a avaliação das condutas de comunidades religiosas.
Valores, deveres e objetividade
Um valor moral diz respeito à bondade ou maldade de algo; um dever diz respeito ao que deve ser feito ou evitado. A diferença é relevante: uma ação pode ser boa sem constituir obrigação de todas as pessoas. Contribuir para determinado projeto pode ser valioso, mas não significa que cada indivíduo seja obrigado a dedicar-se a esse mesmo projeto.
No capítulo 6 de Em guarda, Craig distingue esses conceitos e define objetividade pela independência em relação à opinião humana. Dizer que uma injustiça é objetivamente errada significa afirmar que sua aprovação por um grupo não a torna correta. A concordância coletiva pode reconhecer uma verdade moral, mas, segundo essa concepção, não é aquilo que a cria.
Objetividade também não equivale a concordância universal. Pessoas podem divergir sobre uma questão objetiva ou interpretá-la incorretamente. Assim, mostrar que sociedades possuem opiniões distintas não basta, por si, para demonstrar que nenhuma verdade moral existe. A diversidade exige discutir conhecimento e aplicação, além da questão sobre o fundamento.
A estrutura do argumento de Craig
A formulação de Craig pode ser apresentada em três passos: se Deus não existe, não existem valores e deveres morais objetivos; existem valores e deveres morais objetivos; portanto, Deus existe. A conclusão decorre da combinação das duas premissas. A discussão central está em saber se ambas são verdadeiras e suficientemente justificadas.
Em termos lógicos, a segunda premissa nega a consequência prevista na hipótese da primeira. Se a ausência de Deus implicasse ausência de moralidade objetiva, e esta moralidade existisse, a hipótese de ausência de Deus não poderia ser mantida. Essa forma de raciocínio é válida; reconhecer sua validade não resolve automaticamente a avaliação das premissas.
Também é necessário usar os mesmos conceitos ao longo da inferência. Não se pode começar com a existência de padrões sociais e terminar como se tivesse sido demonstrada a existência de deveres independentes de toda aprovação humana. A força do argumento depende de preservar o sentido da objetividade que se pretende explicar.
A primeira premissa: por que Deus seria necessário?
Craig procura defender que Deus fornece fundamento adequado para o valor das pessoas e para a força obrigatória dos deveres. Sua análise considera insuficiente uma descrição que reduza a moralidade a preferências, vantagens sociais ou efeitos da seleção natural. Explicar que um comportamento favorece a sobrevivência não é ainda explicar por que ele deve ser praticado em sentido moral.
Essa diferença pode ser vista sem recorrer imediatamente à conclusão teísta. Uma organização pode obter vantagens por uma conduta e, ainda assim, agir injustamente. Portanto, utilidade para um grupo e correção moral não são expressões equivalentes. O argumento de Craig procura levar essa distinção a uma explicação última de valores e obrigações.
A premissa, entretanto, exige mais do que identificar dificuldades em uma versão de naturalismo. Negar o teísmo não obriga alguém a adotar relativismo moral. Um crítico pode reconhecer verdades objetivas e questionar justamente sua dependência de Deus. Para defender a necessidade divina, é preciso avaliar essas alternativas e mostrar por que não ofereceriam fundamento suficiente.
A segunda premissa: a experiência moral
Na defesa da segunda premissa, Craig recorre à experiência moral. O reconhecimento de que crueldade gratuita e exploração de inocentes são erradas pode parecer mais sólido do que teorias que negam toda verdade moral. Seu argumento não depende de demonstrar previamente uma lista completa de normas: basta que existam alguns valores ou deveres objetivos.
Isso não torna toda impressão moral infalível. Pessoas podem confundir preconceito, conveniência e tradição com obrigação. Uma defesa da experiência moral precisa admitir possibilidade de correção, do mesmo modo que confiar na percepção não implica negar erros perceptivos. O problema é avaliar se há motivos para rejeitar toda a dimensão moral, e não apenas determinados julgamentos.
O apelo à experiência também deve ser distinguido de um argumento por popularidade. O fato de muitas pessoas acreditarem em uma proposição não garante sua verdade. O defensor procura sustentar que certas percepções possuem credibilidade inicial e que sua negação exige razões suficientes, não que uma votação estabeleça o que é bom.
Fundamento moral e conhecimento moral
Uma das distinções mais importantes é entre ontologia moral e epistemologia moral. A primeira pergunta o que faz existir um valor ou dever; a segunda pergunta como ele é conhecido. É possível reconhecer uma realidade sem possuir uma explicação completa de seu fundamento.
Por isso, a versão de Craig não afirma que alguém precise acreditar em Deus para agir corretamente ou reconhecer uma injustiça. Seu argumento diz respeito à existência divina como fundamento, não à adesão religiosa como condição psicológica de toda boa ação. Em Em guarda, o autor explicita essa diferença e admite a possibilidade de pessoas sem fé formularem códigos morais.
Essa precisão evita transformar uma discussão filosófica em desqualificação pessoal. A conduta de um ateu ou de um cristão precisa ser avaliada em seus próprios termos. Nem a honestidade de um descrente refuta sozinha a necessidade ontológica proposta, nem a identificação religiosa de alguém demonstra que sua conduta seja moralmente correta.
O dilema de Eutífron
Uma objeção tradicional pergunta se uma ação é boa porque Deus a aprova ou se Deus a aprova porque ela é boa. Na primeira alternativa, parece surgir arbitrariedade: a aprovação poderia tornar boa qualquer ação. Na segunda, a bondade pareceria possuir um padrão independente de Deus, enfraquecendo a afirmação de que ele é necessário como fundamento.
A formulação é associada ao diálogo Eutífron, de Platão, mas o debate moderno sobre moralidade e monoteísmo não reproduz simplesmente todas as questões do diálogo antigo. É melhor identificar o problema conceitual em discussão do que supor que uma única frase resolva versões diferentes de teorias do mandamento divino.
Craig propõe distinguir natureza divina e vontade arbitrária. Em sua resposta, o caráter essencialmente bom de Deus constitui o padrão, enquanto os mandamentos expressam esse caráter. Assim, o bem não dependeria de um capricho nem de uma norma superior a Deus. Essa proposta procura oferecer uma alternativa às duas possibilidades do dilema, e não aceitar que uma escolha arbitrária produza obrigação.
A explicação teísta também precisa ser examinada
Erik J. Wielenberg, no artigo An inconsistency in Craig’s defence of the moral argument, questiona a coerência dos critérios explicativos usados por Craig. Segundo sua crítica, Craig exige que o realismo moral não teísta explique certas conexões necessárias, mas sua própria teoria também postula conexões necessárias entre natureza divina e mandamentos sem explicá-las adequadamente. A objeção não é uma acusação contra a conduta de religiosos; é dirigida à estrutura da defesa filosófica.
Esse tipo de crítica mostra por que afirmar a bondade essencial de Deus não encerra a discussão para todos os interlocutores. A questão passa a incluir qual relação explicativa é proposta e que padrão de justificação deve ser aplicado às alternativas. A força do argumento depende também da comparação entre teorias, não apenas da apresentação de uma delas.
Realismo moral sem teísmo
O realismo moral não teísta aceita verdades morais objetivas e rejeita que sua existência dependa de Deus. A divergência com o argumento apresentado está principalmente na primeira premissa, e não necessariamente na segunda. Descrever toda oposição ao argumento como relativismo deixa de representar uma parte importante do debate.
Craig discute alternativas em que valores são tratados como realidades independentes e questiona como elas explicariam obrigações para pessoas. Sua crítica procura distinguir a existência de algo valioso da existência de um dever vinculante. Contudo, essa crítica precisa ser sustentada: uma pergunta difícil para uma teoria não constitui, por si, demonstração de que a teoria concorrente esteja correta.
Há também diferença entre uma refutação completa e uma comparação de poder explicativo. Um defensor pode argumentar que o teísmo reúne valor, obrigação e responsabilidade de maneira mais convincente. Essa abordagem não é idêntica à afirmação dedutiva de que nenhuma moralidade objetiva seria possível sem Deus.
Origem evolutiva e verdade moral
Explicações evolutivas ou sociais de crenças morais levantam outra questão. Descrever como uma crença surgiu não demonstra automaticamente que ela seja falsa. Seria necessário mostrar que o processo a torna pouco confiável ou que há razões independentes para rejeitar seu conteúdo.
Craig usa essa distinção ao responder a objeções sociobiológicas em Em guarda. A história de uma crença e sua verdade são problemas diferentes. Por outro lado, discutir a confiabilidade de um processo de formação pode ser relevante para o conhecimento. Portanto, não basta rotular toda pergunta sobre a origem como falácia: é preciso identificar qual conclusão ela pretende sustentar.
O debate deve separar três planos: de onde vêm nossas crenças, que razões temos para aceitá-las e o que faria verdadeiros os juízos morais. Quando esses planos são confundidos, uma explicação histórica pode ser apresentada como refutação metafísica, ou uma teoria do fundamento pode ser usada como se garantisse a correção de todos os julgamentos humanos.
Alcance e limites da conclusão
Mesmo que a inferência seja aceita, ela não demonstra sozinha todas as doutrinas cristãs. A conclusão de que existe um fundamento divino para a moralidade não é equivalente a provar a Trindade, a encarnação ou a ressurreição. Essas afirmações pertencem a outras discussões filosóficas, históricas e teológicas.
O argumento também não fornece, sem etapas adicionais, uma solução para cada dilema de ética cristã. Fundamentar a obrigação e determinar o que fazer em uma circunstância complexa são tarefas relacionadas, mas distintas. Divergências interpretativas permanecem possíveis mesmo entre pessoas que aceitam o mesmo fundamento.
A discussão do problema do mal também não desaparece pela aceitação da moralidade objetiva. Reconhecer um mal fornece parte do vocabulário da discussão; avaliar sua compatibilidade com um Deus bom exige outros argumentos. O uso apologético responsável identifica esse alcance e não transforma um raciocínio em resposta universal.
O argumento moral é melhor compreendido como uma investigação sobre fundamento, experiência e obrigação. Sua avaliação exige analisar premissas, distinguir formas dedutivas e comparativas e tratar as objeções em sua versão mais consistente. Essa precisão torna possível uma defesa cristã clara e um diálogo que reconheça o conteúdo real das posições concorrentes.
Bibliografia consultada
- CRAIG, William Lane. Em guarda: defenda a fé cristã com razão e precisão. Tradução de Marisa K. A. de Siqueira Lopes. São Paulo: Vida Nova, 2011. Cap. 6, páginas 141–150 e 154–157.
- WIELENBERG, Erik J. An inconsistency in Craig’s defence of the moral argument. European Journal for Philosophy of Religion, v. 4, n. 4, 2012, p. 49–58. Artigo integral consultado. Texto consultado