Artigo enciclopédico Teologia Própria

Deus: existência, natureza, revelação e doutrina cristã

Quem é Deus segundo a fé cristã? Conheça a doutrina cristã de Deus, sua existência, revelação, natureza, atributos, nomes, obras e relação com a criação.

Autoria Equipe Teopédia
Última atualização 25 de setembro de 2026
Tempo de leitura 18 min
01
Visão geral

Em resumo

Quem é Deus segundo a fé cristã? Conheça a doutrina cristã de Deus, sua existência, revelação, natureza, atributos, nomes, obras e relação com a criação.

Deus é o centro da teologia cristã. Toda doutrina cristã pressupõe alguma afirmação sobre quem Deus é, como se revela, o que faz e como se relaciona com o mundo. A Bíblia não começa tentando demonstrar filosoficamente sua existência; começa com Deus como realidade fundamental: criador, Senhor, juiz, redentor e aquele que se dá a conhecer.

Na tradição cristã, Deus é confessado como único, eterno, criador de todas as coisas, perfeito em seu ser e em suas obras e, de modo distintivamente cristão, como Pai, Filho e Espírito Santo. A doutrina de Deus procura reunir o testemunho bíblico sobre sua identidade sem reduzir o mistério divino a uma definição humana exaustiva.

Em resumo

  • O cristianismo afirma que há um só Deus.
  • Deus é criador e não faz parte do universo criado.
  • Ele é pessoal, inteligente, livre, santo, amoroso, justo e soberano.
  • Deus se revela na criação e na história, e de modo culminante em Jesus Cristo.
  • A fé cristã confessa um só Deus em três pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo.
  • Seus atributos não são partes separadas, mas descrições verdadeiras do mesmo ser divino.

A pergunta “Quem é Deus?”

A teologia cristã distingue entre perguntar se Deus existe e perguntar quem Deus é. A primeira questão pertence à teologia natural e à filosofia da religião; a segunda depende decisivamente da revelação.

Para a Bíblia, Deus não é uma hipótese abstrata. Ele se revela por seu nome, atos, promessas, alianças, juízos e obras de redenção. Por isso, conhecer Deus biblicamente não é apenas construir um conceito, mas reconhecer aquele que age na história.

A existência de Deus

Ao longo da história, filósofos e teólogos formularam argumentos em favor da existência de Deus. Entre os mais conhecidos estão argumentos cosmológicos, teleológicos, morais e ontológicos.

A tradição cristã não os avalia de maneira uniforme. Alguns teólogos os consideram demonstrações racionais importantes; outros os veem como sinais ou confirmações que não substituem a revelação. A tradição reformada costuma afirmar que a criação testemunha suficientemente a existência e o poder de Deus, embora o pecado distorça a resposta humana a esse conhecimento.

Revelação geral

Revelação geral é o conhecimento de Deus disponibilizado por meio da criação, da ordem do mundo e da consciência humana. Textos como Salmo 19 e Romanos 1 são centrais para essa doutrina.

Ela é chamada “geral” porque é amplamente acessível e porque comunica verdades gerais sobre Deus. Não oferece, porém, toda a informação necessária para conhecer a obra redentora de Cristo.

Revelação especial

Revelação especial refere-se às maneiras particulares pelas quais Deus se dá a conhecer na história da redenção: palavra profética, atos históricos, Escritura e, de modo supremo, Jesus Cristo.

O cristianismo afirma que o conhecimento salvador de Deus não depende da capacidade humana de descobri-lo por especulação, mas da iniciativa divina de se revelar.

Os nomes de Deus

Na Bíblia, nomes divinos comunicam aspectos da identidade e relação de Deus com seu povo. Elohim, El, Adonai e o tetragrama YHWH aparecem em contextos variados.

O nome YHWH possui importância especial na revelação a Moisés. Ele está ligado à identidade do Deus da aliança que age para libertar Israel e permanece fiel às suas promessas.

No Novo Testamento, a linguagem sobre Deus é inseparável da relação entre Pai, Filho e Espírito Santo. O termo “Pai”, por exemplo, não é apenas metáfora genérica, mas participa da revelação trinitária.

Deus é um

O monoteísmo é uma convicção fundamental das Escrituras. Israel confessa que o Senhor é único, e o Novo Testamento mantém essa afirmação.

A doutrina cristã da Trindade não abandona o monoteísmo. Ela afirma um único ser divino em três pessoas distintas. O cristianismo histórico rejeita tanto três deuses quanto a ideia de um único Deus que apenas aparece em três modos temporários.

Deus como Criador

A doutrina da criação estabelece uma distinção fundamental entre Deus e tudo o que existe. Deus não é parte do universo, nem o universo é extensão necessária de sua essência. Ele cria livremente.

A criação depende de Deus para sua existência, enquanto Deus não depende da criação. Essa assimetria é essencial para a teologia cristã.

Transcendência e imanência

Transcendência significa que Deus é distinto e superior à criação. Imanência significa que ele está presente e atua nela.

Uma teologia equilibrada preserva ambas. Um Deus apenas transcendente se torna distante; um Deus apenas imanente corre o risco de ser confundido com o mundo. A Bíblia apresenta o Deus exaltado que também está próximo.

Espiritualidade de Deus

Ao afirmar que Deus é espírito, a teologia cristã nega que ele seja um ser corpóreo limitado como as criaturas. As descrições bíblicas de mãos, olhos ou braços de Deus são normalmente entendidas como linguagem analógica e antropomórfica.

A encarnação do Filho não altera a natureza divina em corpo; significa que o Filho eterno assume verdadeira natureza humana.

Aseidade

A aseidade afirma que Deus possui vida em si mesmo e não depende de nada externo para existir. Tudo o que é criado depende de Deus; Deus não depende da criação.

Essa doutrina protege a liberdade divina e mostra que a criação não completa uma falta em Deus.

Eternidade

Deus é eterno. Isso significa que sua existência não possui começo nem fim. Teólogos discutem como sua relação com o tempo deve ser formulada: alguns falam de existência atemporal; outros enfatizam uma relação soberana com a temporalidade criada.

Em qualquer formulação ortodoxa, Deus não é uma criatura presa ao fluxo temporal como nós.

Imutabilidade

A imutabilidade afirma que Deus não muda em seu ser, caráter e fidelidade. Isso não significa ausência de relação viva com suas criaturas.

A Bíblia pode descrever Deus como arrependendo-se ou mudando sua ação diante de novas situações. A tradição clássica geralmente entende essas passagens de modo relacional e antropomórfico, sem atribuir instabilidade moral ou ontológica a Deus.

Conhecimento e sabedoria

Deus conhece todas as coisas. A doutrina da onisciência afirma que nenhum fato está oculto a ele.

A sabedoria divina acrescenta que Deus não apenas conhece, mas ordena seus atos de modo perfeitamente adequado aos seus propósitos.

Poder e soberania

A onipotência afirma que Deus possui poder perfeito para realizar sua vontade. Isso não significa capacidade de fazer contradições lógicas ou agir contra sua própria natureza.

Soberania designa seu governo sobre a criação e a história. Diferentes tradições cristãs divergem sobre como conciliar soberania e liberdade humana, mas todas as grandes tradições históricas afirmam que Deus não é mero espectador do mundo.

Santidade

Santidade descreve tanto a transcendência moral de Deus quanto sua absoluta pureza. Na Escritura, a presença do Deus santo expõe o pecado e exige reverência.

A santidade divina também molda a ética do povo de Deus: aqueles que pertencem a ele são chamados a refletir seu caráter.

Justiça e retidão

Deus é justo. Seus juízos são coerentes com sua natureza e não dependem de um padrão moral externo superior a ele.

A justiça de Deus aparece tanto em condenação do mal quanto em defesa do oprimido, fidelidade à aliança e ação redentora.

Amor, graça e misericórdia

O amor de Deus não é sentimentalismo. Na Bíblia, ele se manifesta em eleição, aliança, paciência, perdão e entrega do Filho.

Graça destaca favor não merecido; misericórdia, compaixão diante da miséria e do pecado. Esses conceitos se sobrepõem, mas não são idênticos.

Os atributos de Deus

A teologia sistemática organiza as perfeições divinas sob a categoria de Atributos de Deus. Algumas tradições distinguem atributos comunicáveis e incomunicáveis; outras preferem classificações diferentes.

Nenhuma classificação deve sugerir que Deus seja composto de partes. Amor, justiça, santidade e sabedoria são descrições do mesmo Deus indivisível.

Simplicidade divina

A doutrina clássica da simplicidade afirma que Deus não é composto de partes independentes. Seu ser não resulta da soma de atributos.

Essa doutrina foi muito importante na tradição patrística, medieval e reformada, embora sua formulação filosófica seja discutida entre teólogos contemporâneos.

Deus e o problema do mal

A existência do sofrimento e do mal levanta uma das questões mais difíceis da teologia. Como conciliar bondade, poder e soberania de Deus com um mundo marcado por dor?

As respostas cristãs incluem apelos à liberdade criada, providência, juízo, formação moral, limitação da perspectiva humana e, sobretudo, ao modo como Deus enfrenta o mal na cruz de Cristo e promete sua derrota final.

Nenhuma teodiceia deve tratar o sofrimento humano de maneira abstrata ou insensível.

Deus na história da teologia cristã

Os primeiros cristãos confessaram o Deus de Israel e, ao mesmo tempo, adoraram Jesus e reconheceram o Espírito como divino. Esse desenvolvimento levou à formulação trinitária dos grandes concílios.

Agostinho, Anselmo, Tomás de Aquino, os reformadores e muitos teólogos posteriores desenvolveram linguagem sobre ser, atributos e obras de Deus. Parte dessa linguagem utiliza categorias filosóficas, mas procura servir ao testemunho bíblico.

Deus na tradição reformada

A tradição reformada enfatiza a soberania, glória, santidade e autoexistência de Deus, bem como a dependência absoluta da criação.

Confissões reformadas também insistem que Deus é conhecido verdadeiramente, mas nunca exaustivamente. O conhecimento humano é real porque Deus se revela; é limitado porque a criatura não compreende o Criador em sua plenitude.

É possível definir Deus?

Definições teológicas são úteis, desde que reconheçam seus limites. Deus não pode ser reduzido a uma fórmula. A teologia trabalha por afirmações verdadeiras e analógicas baseadas na revelação.

Dizer que Deus é amor, por exemplo, não significa simplesmente projetar no divino nossa experiência humana de amor. A revelação de Deus corrige e redefine nossos conceitos.

Avaliação editorial da Teopédia

A Teopédia adota a doutrina cristã histórica e reformada de Deus: um único Deus, eterno, criador, pessoal, santo, justo, amoroso e soberano, eternamente existente como Pai, Filho e Espírito Santo.

Essa posição não elimina o diálogo com outras tradições cristãs. Católicos, ortodoxos, reformados, luteranos, batistas e pentecostais compartilham grande parte da doutrina clássica de Deus, embora divergam em algumas formulações filosóficas e em temas relacionados à providência, liberdade e impassibilidade.

Conhecer a Deus: possibilidade e limite

A doutrina cristã começa com uma tensão fundamental: Deus pode ser verdadeiramente conhecido, mas não pode ser exaustivamente compreendido por criaturas. Herman Bavinck chama atenção para esse ponto ao colocar a incompreensibilidade no início da reflexão sobre Deus. Incompreensibilidade não significa que nenhuma afirmação verdadeira possa ser feita, mas que o ser infinito de Deus nunca cabe integralmente em conceitos finitos.

O conhecimento de Deus é possível porque Deus se revela. A teologia cristã não pretende subir intelectualmente até Deus por força autônoma, mas responder à revelação divina na criação, na história, nas Escrituras e, de maneira culminante, em Jesus Cristo.

Revelação geral

A revelação geral designa o conhecimento de Deus comunicado por meio da criação, da providência e da consciência moral. Salmos 19 e Romanos 1 estão entre os textos clássicos usados nessa doutrina. O mundo criado testemunha poder, sabedoria e divindade do Criador.

Na tradição reformada, esse conhecimento é real, mas não suficiente para anunciar o evangelho ou produzir por si mesmo conhecimento salvador de Cristo. O pecado não apaga a revelação; afeta a resposta humana a ela.

Revelação especial

Revelação especial refere-se às palavras e atos pelos quais Deus se dá a conhecer dentro da história da redenção. Chamado de Abraão, êxodo, profecia, alianças e Escrituras pertencem a esse movimento, que o Novo Testamento apresenta como culminando no Filho.

Hebreus 1:1–2 contrasta as diversas formas pelas quais Deus falou anteriormente com a revelação culminante no Filho. Isso não torna o Antigo Testamento descartável; mostra o lugar de Cristo na unidade da revelação.

Os nomes de Deus

Os nomes divinos não funcionam apenas como etiquetas. Eles revelam aspectos da maneira como Deus se relaciona com suas criaturas. Elohim, El, YHWH e outras designações aparecem em contextos diversos. Êxodo 3 associa o nome de Yahweh à revelação de Deus a Moisés e à sua fidelidade à aliança.

A tradição judaica desenvolveu profundo cuidado com o Tetragrama, frequentemente substituindo-o na leitura por Adonai. Traduções cristãs costumam representar YHWH por “SENHOR”. A pronúncia “Yahweh” é uma reconstrução acadêmica amplamente utilizada, enquanto “Jeová” resulta de uma tradição posterior de combinação das consoantes do Tetragrama com sinais vocálicos associados à leitura substitutiva.

Deus é espírito

João 4:24 afirma que Deus é espírito. A teologia cristã entende isso como negação de corporeidade divina por natureza. Deus não é um objeto físico localizado dentro do universo. Linguagem bíblica sobre “mão”, “olhos” ou “braço” de Deus é normalmente entendida de maneira antropomórfica, comunicando ação e relação por imagens humanas.

Essa afirmação precisa ser distinguida da encarnação: o Filho eterno assumiu verdadeira natureza humana. A corporeidade de Jesus pertence à encarnação, não a uma natureza material eterna do ser divino.

Autoexistência e independência

A asseidade de Deus afirma que ele possui vida em si mesmo e não depende de realidade externa para existir ou ser completo. Tudo o que é criado depende de Deus; Deus não depende da criação.

Bavinck e Frame tratam essa independência como fundamental para distinguir Criador e criatura. Deus não cria por carência, solidão ou necessidade de completar-se. Criação e redenção procedem de liberdade e bondade, não de deficiência no ser divino.

Transcendência e imanência

Transcendência significa que Deus está acima da criação e não é parte do universo. Imanência significa que ele está realmente presente e ativo no mundo que criou. A Bíblia sustenta as duas afirmações.

Enfatizar apenas transcendência pode produzir uma imagem de Deus distante; enfatizar apenas imanência pode dissolver a distinção entre Deus e mundo. John Frame relaciona o senhorio divino a controle, autoridade e presença, oferecendo uma maneira de manter essas dimensões juntas.

Deus e o tempo

A relação de Deus com o tempo é tema de debate filosófico e teológico. A tradição clássica fala da eternidade divina, frequentemente entendida como existência não limitada pela sucessão temporal criada. Outros teólogos descrevem Deus como eternamente existente através do tempo ou discutem de que maneira a criação do mundo se relaciona à temporalidade.

A Escritura apresenta Deus como anterior à criação, conhecedor do futuro e constante através das gerações. Uma enciclopédia deve distinguir essas afirmações bíblicas das diferentes teorias filosóficas construídas para explicá-las.

Imutabilidade

A imutabilidade afirma que Deus não muda em seu ser, caráter, propósito e fidelidade. Textos bíblicos também falam de Deus “arrependendo-se”, respondendo à oração e agindo de modo diferente quando pessoas se arrependem.

Frame trata explicitamente dessa tensão. A teologia clássica entende as passagens de mudança relacional como descrição verdadeira da interação de Deus com criaturas, sem implicar transformação moral ou ontológica em Deus. Teísmo aberto e teologia do processo oferecem leituras diferentes, questionando aspectos da formulação clássica.

Onipresença

A onipresença não significa que Deus esteja fisicamente espalhado pelo universo como uma substância. Significa que nenhum lugar está fora de sua presença e ação. Salmos 139 expressa poeticamente essa realidade, e Jeremias 23:23–24 rejeita a ideia de um Deus confinado a um território.

A presença de Deus pode ser experimentada de modos diferentes: presença para abençoar, julgar, sustentar e manifestar sua glória. A doutrina não elimina linguagem bíblica de presença especial no templo, em Cristo ou pelo Espírito.

Onisciência

A onisciência afirma que Deus conhece plenamente a si mesmo e tudo o que é real e possível. A tradição clássica inclui nesse conhecimento acontecimentos passados, presentes e futuros.

Debates contemporâneos envolvem liberdade humana e conhecimento futuro. O teísmo aberto sustenta, em versões diferentes, que decisões livres futuras não são ainda fatos determinados a serem conhecidos como tais. A tradição reformada rejeita essa limitação e mantém que a presciência divina inclui ações humanas futuras sem destruir sua responsabilidade.

Onipotência

Onipotência não significa capacidade de realizar contradições lógicas ou atos incompatíveis com o próprio caráter. A formulação clássica afirma que Deus pode realizar tudo o que corresponde à sua vontade e natureza.

Assim, dizer que Deus “não pode mentir” não constitui deficiência de poder. A impossibilidade moral de falsidade decorre de sua perfeição. Frame distingue cuidadosamente poder divino de uma noção abstrata de capacidade para absurdos.

Santidade

A santidade de Deus comunica sua absoluta distinção, pureza e perfeição moral. Em Isaías 6, a visão do “Santo, Santo, Santo” produz consciência da diferença entre Criador e criatura e da condição pecaminosa do profeta.

A santidade também estrutura a vida de Israel e da Igreja: o povo é chamado a ser santo porque pertence ao Deus santo.

Justiça e retidão

A justiça divina afirma que Deus age de modo coerente com sua natureza moral e julga com retidão. Escrituras relacionam justiça a defesa do oprimido, condenação do mal, fidelidade e juízo imparcial.

O problema filosófico surge quando se pergunta se existe um padrão de justiça acima de Deus. A teologia cristã clássica responde que a justiça não é norma externa que Deus obedece; é expressão de seu próprio caráter santo.

Bondade, misericórdia e graça

A bondade descreve Deus como fonte e doador do bem. Misericórdia enfatiza compaixão diante da miséria; graça, favor concedido a quem não possui mérito para exigi-lo. Esses conceitos se sobrepõem, mas não são idênticos.

Êxodo 34:6–7 combina misericórdia, graça, paciência e fidelidade com justiça, mostrando que o caráter bíblico de Deus não pode ser reduzido a um único atributo isolado.

O amor de Deus

“Deus é amor” (1Jo 4:8) é uma das afirmações mais conhecidas do Novo Testamento. O amor divino aparece na criação, providência, eleição, aliança e de modo supremo no envio do Filho.

A teologia precisa evitar definir amor a partir de um ideal cultural e depois medir Deus por ele. Também precisa evitar opor amor e santidade. Na Escritura, o mesmo Deus que ama julga o mal e busca a restauração de seu povo.

Verdade e fidelidade

Deus é apresentado como verdadeiro e fiel. Sua palavra é confiável porque corresponde ao seu caráter. A fidelidade da aliança torna-se tema recorrente mesmo quando o povo é infiel.

Essa doutrina sustenta a confiança cristã nas promessas, sem implicar que toda expectativa humana formulada em nome de Deus seja garantida.

Soberania

A soberania de Deus descreve seu governo sobre a criação e a história. Na tradição reformada, ela inclui decreto, providência e eleição. Paulo Anglada destaca a centralidade desse tema na teologia reformada.

A relação entre soberania e responsabilidade humana é um dos debates mais difíceis da teologia. Calvinistas, arminianos, molinistas e defensores do teísmo aberto propõem modelos diferentes. A doutrina bíblica precisa afirmar tanto o governo divino quanto a realidade da decisão e responsabilidade humanas, mesmo quando sistemas divergem sobre a forma de conciliá-las.

Providência

Providência é o governo contínuo de Deus sobre aquilo que criou. A tradição reformada costuma descrevê-la em termos de preservação, concorrência e governo. Isso significa que Deus sustenta a existência das criaturas, age através de causas criadas e dirige a história a seus propósitos.

A doutrina não elimina causas naturais nem transforma cada acontecimento em mensagem secreta a ser decodificada. Também levanta a difícil questão da relação de Deus com o mal, tratada em verbetes específicos sobre providência e problema do mal.

Decreto e liberdade

A teologia reformada afirma um propósito divino abrangente, mas rejeita a ideia de que Deus seja moralmente autor do pecado. As criaturas agem segundo seus próprios desejos e são responsáveis. Outras tradições cristãs atribuem maior indeterminação libertária às decisões humanas.

Uma exposição justa deve distinguir aquilo que todas as tradições cristãs clássicas confessam — governo e conhecimento divinos — dos modelos particulares usados para explicar a relação entre esses fatos e liberdade humana.

O Deus trino

A doutrina de Deus não está completa antes da Trindade. O cristianismo não confessa primeiro um Deus genérico e depois acrescenta Pai, Filho e Espírito como detalhe. O único Deus existe eternamente em três pessoas.

O Novo Testamento fala do Pai como Deus, atribui ao Filho nomes, obras e honra divinos e apresenta o Espírito como pessoal e divino. A doutrina trinitária procura manter juntos monoteísmo e essas distinções pessoais.

Deus Pai

“Pai” aparece em vários sentidos bíblicos: Criador, Pai de Israel, Pai dos crentes e, de modo singular, Pai do Filho. A paternidade eterna dentro da Trindade não deve ser reduzida às relações humanas nem usada para afirmar que Deus seja biologicamente masculino.

A tradição cristã manteve linguagem bíblica de Pai ao mesmo tempo em que confessou que Deus, em sua natureza, transcende sexualidade corporal.

O Filho

O cristianismo confessa que o Filho eterno é plenamente Deus e tornou-se verdadeiramente humano em Jesus Cristo. João 1, Filipenses 2, Colossenses 1 e Hebreus 1 estão entre os textos centrais para essa cristologia.

A encarnação não significa que Deus deixou de ser Deus ou que a natureza divina foi transformada em humana. A formulação calcedoniana fala de uma pessoa em duas naturezas, sem confusão nem divisão.

O Espírito Santo

O Espírito não é mera força impessoal. Escrituras descrevem-no ensinando, guiando, intercedendo, sendo entristecido e distribuindo dons. Ele participa da criação, revelação, obra de Cristo, regeneração, santificação e consumação.

A pneumatologia precisa, portanto, integrar a doutrina de Deus e não aparecer apenas como capítulo sobre experiências religiosas.

Deus e a criação

A doutrina da criação ex nihilo afirma que Deus não formou o universo a partir de uma matéria eterna independente. Tudo o que não é Deus depende de sua ação criadora.

Essa distinção exclui panteísmo e qualquer sistema em que o universo seja extensão necessária do ser divino. Também fundamenta a bondade da criação e a responsabilidade humana de cuidar dela.

Deus e o problema do mal

Se Deus é bom, poderoso e soberano, a existência do mal produz uma questão inevitável. Respostas cristãs incluem apelo à liberdade criada, queda, providência, formação moral, limitação epistêmica e promessa escatológica de juízo e restauração.

A tradição reformada enfatiza que Deus governa mesmo acontecimentos maus sem aprovar moralmente o mal das criaturas. Esse é um dos pontos em que a linguagem precisa ser especialmente cuidadosa: afirmar providência não equivale a chamar o mal de bem.

Conhecimento de Deus e adoração

Para Bavinck, conhecer a Deus conduz à adoração. A doutrina de Deus não é mero inventário metafísico. A independência divina combate a ideia de um Deus manipulável; a santidade produz reverência; a graça produz gratidão; a soberania produz confiança; a Trindade estrutura oração e comunhão.

Essa dimensão doxológica é central à tradição reformada: teologia de Deus termina em Soli Deo Gloria.

Perspectiva editorial da Teopédia

A Teopédia confessa o Deus único, pessoal, transcendente e imanente, Criador de todas as coisas, eterno, independente, santo, justo, amoroso, onisciente, onipotente e soberano, eternamente existente como Pai, Filho e Espírito Santo. Essa formulação se situa dentro do cristianismo niceno e da tradição reformada.

Ao abordar debates internos — tempo, liberdade, conhecimento futuro, impassibilidade, providência — os artigos devem distinguir a doutrina cristã central das diferentes teorias usadas para explicá-la. A posição reformada pode ser defendida sem apresentar alternativas históricas de forma caricatural.

Bibliografia complementar desta revisão

  • BAVINCK, Herman. Dogmática Reformada, v. 2: Deus e a Criação.
  • FRAME, John M. A Doutrina de Deus.
  • ANGLADA, Paulo. Soli Deo Gloria: O Ser e as Obras de Deus.
  • BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática.

Conclusão

A doutrina cristã de Deus procura responder quem é aquele de quem toda a teologia fala. Deus é o Criador não criado, Senhor da história e Deus da aliança que se revela e redime. Para a fé cristã, o conhecimento de Deus alcança seu centro na revelação do Pai por meio do Filho no Espírito.

Bibliografia básica

  • BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática.
  • GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática.
  • FERREIRA, Franklin; MYATT, Alan. Teologia Sistemática.
  • ERICKSON, Millard J. Teologia Sistemática.
  • PACKER, J. I. Teologia Concisa.
  • Teologia Bíblica: O Deus das Escrituras Cristãs.

Verbetes relacionados

Atributos de Deus; Trindade; Revelação Geral; Revelação Especial; Criação; Providência; Santidade de Deus; Soberania de Deus.

Assuntos relacionados

Explore este tema

Continue a pesquisa

Artigos relacionados

plugins premium WordPress