O islamismo, ou Islã, é uma religião monoteísta surgida na Península Arábica no século VII, associada à pregação de Maomé (Muhammad) e ao Alcorão. Seus seguidores são chamados muçulmanos. O termo árabe islām está relacionado à ideia de submissão ou entrega a Deus, enquanto muslim designa aquele que se submete a Deus. Ao longo de cerca de catorze séculos, o Islã tornou-se uma tradição religiosa mundial, presente em sociedades muito diferentes entre si e marcada por ampla diversidade histórica, jurídica, teológica e cultural.
Uma apresentação responsável do Islã precisa distinguir entre aquilo que muçulmanos confessam sobre sua própria fé, o desenvolvimento histórico das sociedades islâmicas e a avaliação que outras tradições religiosas fazem de suas doutrinas. A Teopédia, por possuir perspectiva cristã, apresenta primeiro a descrição histórica e doutrinária do Islã e somente depois explicita os principais pontos de comparação com o cristianismo.
Em resumo
- O Islã surgiu no século VII na Arábia, ligado à pregação de Maomé.
- Muçulmanos confessam a absoluta unicidade de Deus, princípio conhecido como tawhid.
- O Alcorão é considerado pelos muçulmanos revelação divina transmitida a Maomé.
- A tradição islâmica também atribui grande importância à sunna, conhecida por meio de coleções de hadith.
- Os cinco pilares resumem práticas fundamentais: profissão de fé, oração ritual, esmola obrigatória, jejum no Ramadã e peregrinação a Meca.
- Sunismo e xiismo são as duas grandes tradições históricas do Islã, embora cada uma contenha diversidade interna.
- Jesus é reconhecido no Islã como Messias e profeta, mas não como Deus Filho no sentido da fé cristã.
- Cristianismo e Islã compartilham referências a figuras bíblicas, criação, juízo, oração e responsabilidade moral, mas divergem profundamente sobre Trindade, encarnação, cruz, ressurreição, revelação e salvação.
Origem do Islã
O Islã surgiu no ambiente religioso e social da Arábia ocidental do início do século VII. Meca era um importante centro comercial e religioso, ligado à Caaba e a práticas religiosas árabes anteriores ao Islã. Havia também presença e conhecimento, em diferentes níveis, de comunidades judaicas e cristãs na região e em áreas vizinhas.
Segundo a tradição islâmica, Maomé nasceu em Meca por volta de 570 e, por volta de 610, começou a receber revelações que identificava como provenientes de Deus por intermédio do anjo Gabriel. Sua mensagem proclamava a unicidade de Deus, condenava a idolatria, convocava ao arrependimento, insistia em responsabilidade moral e anunciava um juízo futuro.
A pregação de Maomé encontrou oposição em Meca. Em 622, ele e seus seguidores migraram para Yathrib, posteriormente conhecida como Medina. Essa migração, chamada Hégira (hijra), tornou-se marco fundamental da história islâmica e ponto inicial do calendário muçulmano. Em Medina, a comunidade liderada por Maomé adquiriu dimensão religiosa, social e política mais definida.
Nos anos seguintes ocorreram alianças, conflitos e negociações entre a comunidade muçulmana e diferentes grupos da região. Maomé retornou a Meca e, quando morreu em 632, grande parte da Arábia já estava vinculada ao novo movimento religioso.
Maomé no Islã
Para os muçulmanos, Maomé não é divino e não deve ser adorado. Ele é considerado mensageiro de Deus e o último de uma sucessão de profetas que inclui, entre outros, Abraão, Moisés e Jesus. A tradição islâmica o apresenta como aquele por meio de quem foi transmitida a forma final da revelação corânica.
A vida de Maomé também se tornou referência para a prática religiosa. Relatos sobre suas palavras, decisões e ações foram preservados em tradições chamadas hadith. Essas tradições, avaliadas e classificadas por estudiosos muçulmanos ao longo dos séculos, contribuíram para a compreensão da sunna, isto é, o exemplo normativo associado ao profeta.
Alá: o termo árabe para Deus
Allah é a palavra árabe normalmente traduzida por “Deus”. O termo não é utilizado exclusivamente por muçulmanos: cristãos de língua árabe também o empregam ao falar de Deus. Portanto, não é correto tratar a palavra Allah, por si só, como nome de uma divindade étnica distinta.
A questão teológica está no modo como Deus é compreendido. O centro da doutrina islâmica é o tawhid, a unicidade absoluta de Deus. Deus é Criador, soberano, conhecedor, misericordioso e juiz. Associar parceiros a Deus — prática chamada shirk — é considerada uma grave negação dessa unicidade.
O tawhid e a unicidade divina
O tawhid não funciona apenas como uma afirmação numérica de que existe um único Deus. Ele estrutura a compreensão islâmica da adoração, da revelação e da obediência. Somente Deus é digno de culto; nenhuma criatura participa de sua divindade.
É nesse contexto que a doutrina cristã da Trindade encontra forte rejeição islâmica. O Alcorão critica formulações que considera incompatíveis com a unicidade divina e rejeita que Deus tenha um filho no sentido em que interpreta essa linguagem. Muçulmanos, portanto, não recebem a confissão cristã de um único Deus eternamente existente como Pai, Filho e Espírito Santo.
Do ponto de vista cristão histórico, porém, a Trindade não significa três deuses nem divisão do ser divino. Essa diferença mostra por que cristãos e muçulmanos podem usar linguagem semelhante ao falar de um Deus único e ainda sustentar concepções teológicas profundamente distintas.
O Alcorão
O Alcorão é o texto sagrado central do Islã. Muçulmanos entendem que suas revelações foram comunicadas a Maomé em árabe e preservadas como Palavra de Deus. O livro é organizado em 114 capítulos, chamados suras, subdivididos em versículos ou ayat.
A ordem das suras não corresponde simplesmente à cronologia das revelações. Na tradição interpretativa, costuma-se distinguir textos associados ao período de Meca e textos relacionados ao período de Medina, distinção importante para compreender contexto, temas e desenvolvimento da comunidade.
O árabe do Alcorão ocupa lugar singular na tradição islâmica. Traduções são amplamente utilizadas, mas, em sentido estrito, muitos muçulmanos distinguem o texto árabe revelado de suas traduções interpretativas.
Sunna e hadith
O Alcorão não é a única fonte utilizada na formação da prática islâmica. A sunna representa o exemplo atribuído a Maomé, e os hadiths são relatos que preservam palavras, ações e aprovações do profeta. Diferentes coleções adquiriram graus distintos de autoridade dentro das tradições islâmicas.
Os estudiosos muçulmanos desenvolveram métodos para avaliar cadeias de transmissão e conteúdo dessas tradições. Por isso, não é correto falar de “o Hadith” como se existisse um único livro universalmente recebido de maneira idêntica por todos os muçulmanos.
Os cinco pilares
Uma apresentação clássica da prática islâmica sunita destaca cinco obrigações fundamentais, frequentemente chamadas cinco pilares do Islã.
1. Shahada — profissão de fé
A shahada confessa que não há divindade digna de adoração além de Deus e que Maomé é seu mensageiro. Essa profissão resume o monoteísmo islâmico e o reconhecimento do papel profético de Maomé.
2. Salat — oração ritual
Muçulmanos observantes realizam orações rituais em horários determinados ao longo do dia, voltados em direção a Meca. A oração envolve recitação, posições corporais e fórmulas litúrgicas.
3. Zakat — contribuição obrigatória
O zakat é uma obrigação de caráter religioso e social relacionada à distribuição de parte dos recursos a destinatários previstos pela tradição. Distingue-se de ofertas voluntárias adicionais.
4. Sawm — jejum do Ramadã
Durante o mês do Ramadã, muçulmanos que se enquadram nas condições prescritas jejuam do amanhecer ao pôr do sol, abstendo-se de comida e bebida durante esse período. O mês possui intenso significado devocional e comunitário.
5. Hajj — peregrinação a Meca
O hajj é a peregrinação ritual a Meca, requerida ao menos uma vez na vida daqueles que possuem condições físicas e financeiras para realizá-la. Seus ritos vinculam a comunidade islâmica a narrativas associadas a Abraão, Ismael e à Caaba.
Crenças fundamentais
Além dos cinco pilares, apresentações tradicionais da fé islâmica incluem crença em Deus, nos anjos, nas revelações divinas, nos mensageiros, no dia do juízo e no decreto ou soberania de Deus. A maneira de explicar cada uma dessas doutrinas varia entre escolas e correntes.
A vida humana é compreendida como responsável diante de Deus. A ressurreição e o juízo possuem lugar importante na pregação corânica, e paraíso e punição aparecem como realidades escatológicas.
Sharia e fiqh
O termo sharia é frequentemente traduzido de maneira simplificada como “lei islâmica”, mas a realidade histórica é mais complexa. Em sentido religioso, a sharia se refere ao caminho ou vontade normativa de Deus. O esforço humano de interpretar e formular regras jurídicas é normalmente designado fiqh, a jurisprudência islâmica.
O desenvolvimento jurídico recorreu ao Alcorão, à sunna e a métodos de interpretação e raciocínio reconhecidos por diferentes escolas. No sunismo consolidaram-se historicamente quatro grandes escolas jurídicas: hanafita, maliquita, shafiita e hanbalita. O xiismo desenvolveu suas próprias tradições jurídicas.
Isso significa que não existe um único código chamado “a sharia” aplicado de maneira uniforme em todos os países muçulmanos. Sistemas jurídicos contemporâneos variam amplamente e combinam, em proporções diferentes, direito civil, tradição local e jurisprudência islâmica.
Sunismo e xiismo
A principal divisão histórica do Islã está relacionada inicialmente à questão da liderança da comunidade após a morte de Maomé. Os que viriam a formar a tradição sunita reconheceram uma sequência de califas iniciada por Abu Bakr. A tradição xiita vinculou a liderança legítima de modo especial a Ali, primo e genro de Maomé, e à família do profeta.
Com o tempo, a divisão produziu desenvolvimentos próprios de autoridade religiosa, jurisprudência, memória histórica e espiritualidade. O sunismo tornou-se numericamente majoritário, enquanto comunidades xiitas adquiriram presença especialmente importante em regiões como Irã e Iraque.
Reduzir a diferença entre sunitas e xiitas a uma disputa política antiga, porém, é insuficiente. Séculos de desenvolvimento produziram tradições teológicas e institucionais próprias.
Sufismo
Sufismo é um termo amplo usado para correntes de espiritualidade e mística islâmicas que enfatizam purificação interior, lembrança de Deus, disciplina espiritual e amor divino. Ordens sufis exerceram papel relevante na história religiosa e missionária do Islã em diferentes regiões.
O sufismo não deve ser apresentado simplesmente como uma terceira denominação ao lado de sunitas e xiitas. Práticas e tradições sufis surgiram dentro de diferentes contextos islâmicos e também foram criticadas por alguns movimentos reformistas muçulmanos.
Jesus no Islã
Jesus, chamado em árabe Isa, ocupa posição importante no Alcorão. Ele é associado a Maria, ao nascimento extraordinário e ao título de Messias, e é reconhecido como mensageiro de Deus. Contudo, o significado desses títulos não é idêntico ao cristão.
O Islã rejeita a confissão de que Jesus seja Deus Filho encarnado. Também rejeita a ideia de filiação divina conforme a entende e não recebe a doutrina cristã da Trindade. A interpretação muçulmana tradicional de Alcorão 4:157 também diverge da afirmação cristã histórica de que Jesus foi crucificado e morreu sob Pôncio Pilatos.
Assim, o respeito islâmico por Jesus não equivale à cristologia do Novo Testamento e dos credos históricos. A diferença não é periférica: envolve a identidade de Cristo e a própria compreensão da salvação.
Maria no Islã
Maria, mãe de Jesus, também possui destaque singular. O Alcorão contém uma sura denominada Maryam e apresenta Maria como mulher escolhida e associada ao nascimento milagroso de Jesus. Sua presença é um importante ponto de contato para estudos comparativos entre cristianismo e Islã, embora as narrativas e interpretações não coincidam integralmente.
Abraão e os profetas
O Islã se compreende em continuidade com uma história de revelação que inclui figuras conhecidas do judaísmo e do cristianismo. Abraão possui importância especial como modelo de submissão a Deus e é relacionado, na tradição islâmica, à história da Caaba e a Ismael.
Moisés, Davi, Salomão, João Batista e outros personagens também aparecem no Alcorão. Entretanto, narrativas corânicas e bíblicas podem divergir em conteúdo, finalidade e detalhes. Por isso, a presença dos mesmos nomes não significa identidade entre os sistemas de revelação.
A expansão histórica do Islã
Após a morte de Maomé, a comunidade islâmica passou por rápida expansão política e territorial. Califados sucessivos estenderam sua influência para áreas do Oriente Médio, Norte da África, Península Ibérica, Ásia Central e outras regiões.
A História Geral da África da UNESCO mostra a amplitude desse processo: uma comunidade inicialmente pequena em Meca tornou-se, ao longo de séculos, parte central de uma extensa rede religiosa, política, intelectual e comercial que alcançou grandes regiões da África, da Ásia e do Mediterrâneo.
A expansão do Islã não ocorreu por um único mecanismo. Conquista militar, comércio, migração, atividade de estudiosos e missionários, redes sufis, alianças políticas e integração cultural tiveram pesos diferentes conforme o lugar e o período.
Califados e civilização islâmica
O título de califa esteve associado à liderança política da comunidade após Maomé. Os primeiros califados foram seguidos por grandes dinastias, entre elas os omíadas e os abássidas. Em diferentes períodos também existiram califados rivais e numerosos estados muçulmanos independentes.
Sociedades islâmicas medievais desempenharam papel relevante em filosofia, medicina, matemática, astronomia, literatura e preservação e desenvolvimento de tradições intelectuais gregas, persas, indianas e outras. Pensadores como al-Farabi, Avicena e Averróis participaram de debates filosóficos que posteriormente influenciaram também autores judeus e cristãos.
O Islã não é uma religião apenas árabe
Embora o árabe possua centralidade litúrgica e histórica, a maioria dos muçulmanos do mundo não é árabe. Grandes populações muçulmanas vivem no sul e sudeste da Ásia, na África subsaariana, na Ásia Central e em outras regiões. A Indonésia, por exemplo, tornou-se historicamente um dos grandes centros demográficos do Islã.
Também é importante distinguir árabe, categoria principalmente linguística e cultural, de muçulmano, identidade religiosa. Existem árabes cristãos e pessoas de numerosas etnias que professam o Islã.
Diversidade interna
Falar em “o Islã” é necessário para descrever crenças e instituições compartilhadas, mas pode esconder diferenças significativas. Muçulmanos divergem sobre interpretação do Alcorão e da tradição, autoridade política, escolas jurídicas, movimentos de reforma, sufismo, relação entre religião e Estado e respostas à modernidade.
Há muçulmanos tradicionalistas, reformistas, modernistas, secularizados, místicos e movimentos políticos de naturezas muito distintas. Grupos extremistas representam correntes específicas e não podem ser tratados como descrição automática de todos os muçulmanos.
Islã, islamismo político e extremismo
Em português, a palavra “islamismo” pode simplesmente designar a religião islâmica. Em alguns contextos acadêmicos e jornalísticos, porém, “islamismo” também é usado para movimentos políticos que procuram organizar sociedade e Estado segundo determinada interpretação do Islã. Essa ambiguidade exige cuidado.
Da mesma forma, Islã, islamismo político e jihadismo não são sinônimos. Movimentos violentos devem ser descritos de acordo com suas ideologias e contextos específicos, sem transferir automaticamente suas posições para a totalidade de uma população religiosa mundial.
O significado de jihad
Jihad significa literalmente esforço ou luta. O termo possui usos diversos na tradição islâmica. Pode ser empregado para esforço religioso e moral e também, em textos jurídicos e históricos, para formas de conflito armado. A interpretação, as condições e o alcance dessas categorias foram debatidos por juristas e movimentos muçulmanos.
Por isso, tanto traduzir sempre jihad simplesmente como “guerra santa” quanto negar qualquer uso militar histórico do conceito produz uma descrição incompleta.
Cristianismo e Islã: pontos de contato
Cristãos e muçulmanos compartilham várias referências religiosas: creem em um Criador, falam de revelação, oração, juízo, vida moral e mencionam Abraão, Moisés, Davi, Maria e Jesus. Ambas as tradições desenvolveram extensas práticas de oração, jejum, caridade e comunidade religiosa.
Esses pontos de contato tornam o diálogo possível, mas não apagam divergências. Palavras semelhantes podem possuir sentidos teológicos distintos. Uma comparação responsável precisa perguntar não apenas se ambas as religiões falam de Deus, profetas ou salvação, mas o que cada uma afirma sobre esses temas.
Diferenças centrais em relação ao cristianismo
Trindade
O cristianismo histórico confessa um só Deus em três pessoas — Pai, Filho e Espírito Santo. O Islã rejeita essa formulação em nome do tawhid.
Identidade de Jesus
Para o cristianismo, Jesus é o Filho eterno que assumiu natureza humana. No Islã, Jesus é um mensageiro extraordinário e Messias, mas criatura e servo de Deus, não Deus encarnado.
Cruz e ressurreição
A fé cristã considera morte e ressurreição de Cristo acontecimentos centrais do evangelho. A interpretação islâmica clássica de Jesus não recebe a narrativa cristã da crucificação da mesma maneira, e sua teologia da salvação não depende de uma expiação realizada pela morte de Cristo.
Revelação
O cristianismo reconhece nas Escrituras do Antigo e Novo Testamentos o testemunho normativo da revelação que culmina em Cristo. O Islã entende o Alcorão como revelação final e normativa comunicada a Maomé.
Pecado e salvação
As duas tradições reconhecem pecado, juízo e necessidade de misericórdia divina, mas formulam de modo diferente a condição humana e o caminho da salvação. O cristianismo histórico coloca no centro a graça de Deus manifestada na obra de Cristo, enquanto a tradição islâmica estrutura a vida de submissão, fé, arrependimento, obras e esperança na misericórdia e no juízo de Deus.
O mesmo Deus?
A pergunta “cristãos e muçulmanos adoram o mesmo Deus?” exige distinguir referência e descrição teológica. O termo árabe Allah é usado tanto por muçulmanos quanto por cristãos árabes, de modo que a simples diferença de palavra não resolve a questão.
Ao mesmo tempo, cristianismo e Islã fazem afirmações incompatíveis sobre a identidade de Deus: especialmente quanto à Trindade e à relação entre Pai e Filho. Teólogos cristãos respondem à pergunta de maneiras diferentes conforme distinguem o referente histórico do discurso sobre Deus e o conteúdo das crenças atribuídas a ele. O ponto seguro é que não se deve resolver a questão nem pela mera semelhança do vocabulário nem pela falsa ideia de que “Alá” seja o nome de outro deus étnico.
Como estudar o Islã de maneira responsável
Uma abordagem acadêmica e cristã responsável evita dois erros opostos. O primeiro é a caricatura: descrever todos os muçulmanos a partir de extremistas, apresentar diferenças teológicas de forma ofensiva ou atribuir a toda a tradição uma única interpretação jurídica ou política. O segundo é apagar diferenças reais em nome do diálogo.
O estudo deve recorrer às fontes islâmicas, à história e a pesquisas especializadas, distinguir descrição e avaliação e reconhecer a diversidade interna. Somente depois dessa descrição é adequado desenvolver crítica teológica cristã.
Perspectiva editorial da Teopédia
A Teopédia aborda o Islã a partir da fé cristã histórica e reformada, mas considera obrigatório representá-lo com precisão antes de avaliá-lo. O cristianismo reconhece pontos de contato importantes com muçulmanos, inclusive a afirmação de um Criador, a seriedade do juízo e diversas referências proféticas. Contudo, entende que as divergências sobre Deus e Jesus atingem o centro da fé.
Do ponto de vista cristão, a confissão trinitária, a encarnação do Filho, sua morte expiatória e ressurreição não são doutrinas laterais que possam ser removidas para produzir uma religião comum. Elas constituem elementos fundamentais do evangelho. Portanto, respeito por muçulmanos e diálogo honesto não exigem minimizar essas diferenças; exigem descrevê-las corretamente, sem hostilidade e sem confusão conceitual.
Conclusão
O Islã é uma tradição monoteísta mundial formada por Escritura, memória profética, jurisprudência, espiritualidade e uma longa história de sociedades e culturas diversas. Surgido na Arábia do século VII, expandiu-se por grandes regiões e se desenvolveu em tradições como sunismo e xiismo, além de múltiplas escolas e movimentos.
Para o estudo teológico cristão, compreender o Islã exige mais do que enumerar “cinco pilares” ou listar diferenças. É necessário conhecer sua história, suas fontes e sua autocompreensão. Somente assim a comparação com o cristianismo pode ser intelectualmente séria, teologicamente clara e respeitosa com as pessoas cuja fé está sendo descrita.
Bibliografia utilizada
- Alcorão. Edição em língua portuguesa disponível na biblioteca da Teopédia.
- CORDUAN, Winfried. “Uma visão do Oriente Médio: teísmo islâmico”. In: SIRE, James W. O Universo ao Lado.
- EL FASI, Mohammed (org.). História Geral da África, v. III: África do século VII ao XI. Brasília: UNESCO.
- ANYABWILE, Thabiti. O Evangelho para Muçulmanos. São José dos Campos: Fiel.
- LEITE FILHO, Tácito da Gama. História das Religiões.
Verbetes relacionados
Maomé; Alcorão; Sunismo; Xiismo; Sufismo; Monoteísmo; Trindade; Jesus Cristo; Revelação; Cristianismo; Judaísmo; Religiões Abraâmicas.