Artigo enciclopédico Teologia Bíblica

Reino de Deus: significado bíblico, desenvolvimento e relação com a missão de Jesus

O que significa o Reino de Deus na Bíblia? Entenda seu desenvolvimento no Antigo e no Novo Testamento, sua centralidade na pregação de Jesus e sua relação com Igreja, salvação e nova criação.

Autoria Equipe Teopédia
Última atualização 24 de setembro de 2026
Tempo de leitura 18 min
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Visão geral

Em resumo

O que significa o Reino de Deus na Bíblia? Entenda seu desenvolvimento no Antigo e no Novo Testamento, sua centralidade na pregação de Jesus e sua relação com Igreja, salvação e nova criação.

O Reino de Deus é um dos temas centrais da Bíblia e ocupa lugar decisivo na pregação de Jesus. A expressão não se refere primariamente a um território, mas ao governo soberano de Deus, à sua autoridade exercida sobre a criação e, de modo redentor, à sua ação para restaurar aquilo que o pecado corrompeu.

Em resumo

  • O Reino de Deus é, antes de tudo, o reinado de Deus.
  • O tema atravessa toda a Escritura, mesmo quando a expressão não aparece literalmente.
  • Jesus anunciou que o Reino havia se aproximado e manifestou seus sinais em palavras e obras.
  • O Reino é presente e futuro: já foi inaugurado, mas ainda aguarda sua consumação plena.
  • A Igreja não é idêntica ao Reino, mas é comunidade do Reino e testemunha de seu Rei.

O Reino no Antigo Testamento

O Antigo Testamento apresenta Deus como Rei de toda a criação e de Israel. Salmos celebram seu domínio universal, enquanto a história da aliança mostra que Israel deveria viver sob sua autoridade. A monarquia davídica acrescenta uma dimensão messiânica: o rei escolhido por Deus deveria representar o governo divino no meio do povo.

Os profetas, porém, denunciam a infidelidade de reis e povo e apontam para uma intervenção futura de Deus. Textos em Isaías, Daniel, Miquéias e Zacarias anunciam restauração, justiça, derrota dos inimigos, renovação do povo e domínio divino de alcance universal. A esperança do Reino passa, assim, a ser ligada à vinda do Messias e à renovação escatológica.

O Reino na pregação de Jesus

Nos Evangelhos Sinóticos, Jesus inicia seu ministério proclamando que o Reino de Deus se aproximou. Essa mensagem não é mero anúncio de um governo político. Ela afirma que, na pessoa e na obra de Jesus, o governo salvador de Deus entrou de modo decisivo na história.

As curas, os exorcismos, o perdão dos pecados, a acolhida dos marginalizados e a proclamação do evangelho funcionam como sinais de que o poder do Reino está atuando. Ao expulsar demônios e restaurar vidas, Jesus demonstra que o domínio de Satanás está sendo confrontado pelo reinado de Deus.

Reino presente e futuro

Uma das características mais importantes da teologia do Reino é a tensão entre o já e o ainda não. O Reino já chegou porque Cristo veio, venceu o pecado em sua obra redentora e derramou o Espírito. Contudo, o Reino ainda não se manifestou em sua plenitude, pois permanecem morte, sofrimento, injustiça e pecado.

Essa tensão explica por que o Novo Testamento pode falar do Reino como realidade presente e, ao mesmo tempo, como herança futura. A consumação ocorrerá na volta de Cristo, na ressurreição dos mortos, no juízo final e na nova criação.

Reino de Deus e salvação

Entrar no Reino é participar da salvação concedida por Deus. Jesus relaciona o Reino a arrependimento, fé, novo nascimento, discipulado e submissão ao Rei. O Reino não é conquistado por mérito humano; é recebido como dádiva da graça.

Ao mesmo tempo, receber o Reino produz uma nova forma de vida. As bem-aventuranças, o Sermão do Monte e as parábolas mostram que os cidadãos do Reino são chamados a viver segundo valores que refletem o caráter do Rei: justiça, misericórdia, fidelidade, humildade e amor.

Reino de Deus e Igreja

A Igreja e o Reino estão profundamente relacionados, mas não são termos idênticos. O Reino é maior que a Igreja, porque se refere ao governo de Deus. A Igreja é a comunidade daqueles que confessam Jesus como Senhor e, por isso, deve tornar visíveis os sinais do Reino em sua adoração, comunhão, santidade, serviço e missão.

Quando a Igreja prega o evangelho, faz discípulos, pratica misericórdia e vive sob a autoridade de Cristo, testemunha o Reino. Quando confunde poder institucional, prestígio político ou sucesso cultural com o Reino de Deus, corre o risco de reduzir uma realidade escatológica a projetos humanos.

Reino e parábolas

As parábolas de Jesus revelam diferentes aspectos do Reino. A semente mostra crescimento muitas vezes silencioso; o grão de mostarda destaca um começo pequeno com resultado amplo; o tesouro escondido ressalta valor incomparável; o trigo e o joio ensinam coexistência temporária entre bem e mal até o juízo.

Essas parábolas corrigem expectativas de um Reino que se imporia imediatamente por força política. O Reino avança pela palavra, pelo Espírito e pela obra do Messias, até sua manifestação final.

Reino e cruz

A cruz é central para compreender o Reino. Jesus reina de modo paradoxal: vence servindo, derrota o pecado oferecendo-se em sacrifício e recebe exaltação após a humilhação. A inscrição colocada sobre a cruz, embora usada como acusação, expressa ironicamente a identidade régia de Jesus.

A ressurreição confirma sua vitória e inaugura uma nova etapa da história da redenção. O Rei crucificado é o Senhor ressuscitado.

Reino e missão

A missão cristã é inseparável do Reino. O evangelho anuncia que Deus reina em Cristo e chama pessoas de todas as nações à fé e ao discipulado. A missão, portanto, não é apenas expansão institucional da Igreja, mas testemunho do senhorio de Cristo.

Essa missão inclui proclamação verbal e vida coerente. O cuidado com o próximo, a justiça, a reconciliação e a misericórdia não substituem o evangelho, mas devem acompanhá-lo como frutos da nova vida sob o governo de Deus.

O sentido bíblico de “reino”

Uma dificuldade importante é que a palavra “reino” pode sugerir ao leitor moderno principalmente um território. Na linguagem bíblica, porém, o aspecto fundamental é o exercício da realeza: o governo, a autoridade e a ação de um rei. George Eldon Ladd tornou essa distinção especialmente influente na teologia evangélica contemporânea ao insistir que o Reino de Deus é, antes de tudo, o reinado de Deus.

Isso não significa que o Reino não tenha povo, esfera e consequências históricas. Significa que essas realidades derivam do fato mais fundamental de que Deus reina. A pergunta central não é apenas “onde está o Reino?”, mas “como e onde o governo de Deus está sendo manifestado?”.

Criação, imagem de Deus e governo

A temática do Reino pode ser percebida já na criação. Deus cria o mundo e estabelece a humanidade como sua imagem, conferindo-lhe responsabilidade sobre a terra. O domínio humano deveria refletir o governo justo do Criador. O pecado, porém, transforma vocação em rebelião, cuidado em exploração e obediência em autonomia.

Desse ponto de vista, a história da redenção pode ser compreendida como a restauração do governo de Deus sobre uma criação rebelada. Deus nunca deixa de ser soberano, mas sua autoridade é rejeitada por criaturas que preferem governar a si mesmas.

O Reino e a aliança davídica

A promessa feita a Davi acrescenta uma dimensão messiânica decisiva ao tema. O rei davídico deveria exercer sua autoridade debaixo do governo de Deus, e a promessa de uma dinastia duradoura alimentou a expectativa de um descendente por meio de quem justiça e fidelidade seriam finalmente estabelecidas.

O fracasso dos reis históricos não destruiu essa esperança; ao contrário, contribuiu para intensificá-la. Profetas passaram a anunciar um rei futuro caracterizado por justiça, paz, fidelidade e ação do Espírito.

O Reino no judaísmo do Segundo Templo

Entre o Antigo e o Novo Testamento, Israel viveu sob sucessivos poderes estrangeiros. Nesse contexto, a esperança do governo de Deus assumiu diferentes formas: libertação nacional, purificação do povo, restauração davídica, intervenção apocalíptica e juízo sobre os inimigos. Não existia uma única expectativa uniforme.

Esse pano de fundo explica a força do anúncio de Jesus de que o Reino “se aproximou”. Seus ouvintes não escutavam uma expressão neutra. Ela carregava séculos de promessa, frustração, dominação estrangeira e esperança escatológica.

O Reino e o ministério de Jesus

Nos Evangelhos Sinóticos, a proclamação do Reino está no centro do ministério de Jesus. Ele anuncia sua proximidade, chama ao arrependimento, ensina por parábolas e realiza obras que funcionam como sinais do governo divino. Curas, exorcismos, perdão e acolhida de marginalizados não são milagres desconectados; integram a manifestação do Reino.

Os exorcismos são especialmente significativos. Jesus interpreta sua vitória sobre poderes malignos como evidência de que o domínio de Deus está avançando. A chegada do Reino, portanto, inclui confronto com tudo aquilo que escraviza e desfigura a criação.

O “mistério” do Reino

Uma das características mais marcantes do ensino de Jesus é que o Reino chega antes de sua manifestação final. A expectativa comum podia associar a intervenção de Deus à derrota imediata dos inimigos e ao fim da presente era. Jesus, porém, anuncia um Reino que está realmente presente e, ao mesmo tempo, ainda aguarda sua consumação.

As parábolas da semente, do fermento, do joio e da rede ilustram essa realidade. O Reino pode começar de modo pequeno, crescer de maneira não espetacular e coexistir, por algum tempo, com a persistência do mal. O juízo final permanece futuro.

A escatologia inaugurada: “já” e “ainda não”

A expressão “já e ainda não” tornou-se uma síntese clássica para essa estrutura. O Reino já chegou porque Cristo veio, venceu poderes do mal, morreu, ressuscitou e derramou o Espírito. Contudo, ele ainda não chegou em sua plenitude, pois pecado, morte, injustiça e sofrimento continuam presentes.

Ladd mostrou como essa tensão permite fazer justiça a dois conjuntos de textos do Novo Testamento: aqueles que descrevem o Reino como realidade presente e aqueles que o apresentam como herança futura. A era futura invadiu a presente sem ainda eliminá-la.

O Reino no Evangelho de João

O quarto Evangelho utiliza a expressão “Reino de Deus” com menos frequência que os Sinóticos, mas mantém a mesma realidade teológica. Em João 3, Jesus ensina que ninguém pode ver ou entrar no Reino sem nascer do alto, pela ação do Espírito.

Isso destaca uma dimensão essencial: participar do Reino exige uma obra de renovação que o ser humano não produz por si mesmo. O governo de Deus não é simplesmente aceitação de uma ideologia ou adesão externa a uma comunidade; implica nova vida.

O Reino em Paulo

Paulo emprega a expressão menos frequentemente que os Evangelhos, mas o tema permanece importante. Ele fala do Reino como realidade à qual os cristãos já pertencem e também como herança que ainda receberão. O senhorio de Cristo, tão central em suas cartas, possui evidente caráter régio.

Primeira Coríntios 15 apresenta uma das passagens mais importantes: Cristo reina até que todos os inimigos sejam colocados debaixo de seus pés, e a morte é o último inimigo a ser destruído. A consumação do Reino, portanto, está ligada à ressurreição e à vitória definitiva sobre a morte.

Reino e Espírito Santo

O derramamento do Espírito pertence à realidade inaugurada do Reino. O Espírito comunica a vida da era futura, aplica a obra de Cristo, capacita a missão e forma uma comunidade que vive sob o senhorio de Jesus. Sua presença é sinal de que o futuro de Deus já começou a operar no presente.

Principais interpretações

Ao longo da história cristã, diferentes tradições enfatizaram aspectos distintos do Reino. Algumas o relacionaram fortemente à Igreja institucional; outras destacaram sua dimensão ética ou social; movimentos escatológicos enfatizaram sua realização futura.

Na teologia bíblica contemporânea, tornou-se comum afirmar a natureza inaugurada do Reino: ele já está presente em Cristo, mas sua plenitude permanece futura. Essa formulação busca manter juntos os diversos dados do Novo Testamento.

Reino e Igreja: relação sem identidade

A Igreja e o Reino estão profundamente ligados, mas não são termos equivalentes. O Reino é o governo de Deus; a Igreja é a comunidade daqueles que reconhecem esse governo em Cristo. Ela recebe o Reino, anuncia o Reino e deve tornar visíveis os seus sinais, mas não pode reivindicar ser a totalidade do Reino.

Essa distinção protege contra dois extremos. De um lado, impede identificar automaticamente uma instituição eclesiástica com o governo de Deus. De outro, evita separar tanto o Reino da Igreja que a comunidade cristã deixe de ter qualquer função histórica no testemunho do senhorio de Cristo.

A Igreja como sinal do Reino

Quando a Igreja proclama o evangelho, celebra a obra de Cristo, pratica reconciliação, cuida dos necessitados e vive em santidade, ela oferece uma antecipação imperfeita da ordem futura de Deus. Não produz a consumação por seus próprios recursos, mas vive sob a promessa dela.

Essa compreensão ajuda a explicar por que missão, ética e comunidade estão ligadas. O anúncio do Reino exige uma forma de vida correspondente ao Rei que se anuncia.

Reino e missão

A missão cristã decorre da autoridade universal de Cristo. Em Atos, a mensagem do Reino e a proclamação de Jesus aparecem unidas. O livro termina com Paulo anunciando o Reino de Deus e ensinando acerca de Jesus Cristo, mostrando que não existem duas mensagens concorrentes: o Reino chegou precisamente no Rei.

A missão inclui proclamação verbal do evangelho e uma vida que confirme essa mensagem. Justiça, misericórdia, cuidado com pobres e reconciliação não substituem a morte e ressurreição de Cristo, mas são frutos coerentes da nova vida sob seu governo.

Reino, justiça e vida pública

O Reino possui implicações públicas porque a confissão de Jesus como Senhor relativiza todas as demais autoridades. Entretanto, nenhuma ordem política, projeto nacional ou instituição humana pode ser identificada sem reservas com o Reino de Deus.

A ética do Reino afeta a maneira como cristãos lidam com poder, dinheiro, violência, justiça e cuidado com o próximo, mas sua consumação depende da ação final de Deus, não de uma engenharia social perfeita.

Reino e nova criação

A esperança do Reino não termina em uma existência desencarnada. O Novo Testamento aponta para ressurreição, derrota da morte e renovação da criação. A consumação significa o governo de Deus plenamente reconhecido em uma realidade restaurada.

Essa perspectiva corrige a ideia de que a meta cristã seja simplesmente escapar do mundo. A esperança bíblica é que Deus faça novas todas as coisas.

Erros comuns na compreensão do Reino

Um primeiro erro é reduzir o Reino ao céu depois da morte. O Reino inclui a esperança futura, mas é mais amplo e já está presente na atuação de Cristo. Um segundo erro é tratar o Reino como plenamente realizado agora, ignorando que morte, sofrimento e pecado ainda aguardam sua derrota final.

Um terceiro erro é identificá-lo totalmente com a Igreja. A Igreja serve ao Reino, mas o governo de Deus é maior do que qualquer instituição eclesiástica. Um quarto erro é transformar o Reino em um programa meramente político ou social. A justiça pública importa, mas nenhum projeto humano pode reivindicar ser a consumação do governo divino.

O erro oposto é espiritualizar o Reino de maneira tão intensa que ele perca suas consequências éticas e comunitárias. Na Bíblia, o reinado de Deus transforma tanto a relação com Deus quanto a relação com o próximo.

O Reino e a vida cristã

Buscar primeiro o Reino significa ordenar a vida sob a autoridade de Deus. Isso envolve fé em Cristo, oração, obediência, generosidade, justiça, misericórdia e esperança. A oração “venha o teu Reino” expressa ao mesmo tempo desejo de que o governo de Deus seja reconhecido no presente e esperança de sua manifestação final.

A ética cristã nasce dessa dupla realidade. Porque o Reino já chegou, o discípulo pode viver de modo novo; porque ainda não chegou em plenitude, ele continua a esperar, lamentar, perseverar e orar.

George Eldon Ladd e a teologia do Reino

Entre os teólogos evangélicos do século XX, George Eldon Ladd exerceu influência decisiva ao formular de maneira clara a escatologia inaugurada. Em sua Teologia do Novo Testamento, ele mostra que o Reino futuro esperado por Israel entrou na história na missão de Jesus sem que a era presente tivesse terminado.

Essa estrutura oferece uma chave para compreender o conjunto do Novo Testamento: salvação, Espírito e vida eterna já são experimentados, mas ressurreição final, juízo e nova criação permanecem futuros.

O Reino no livro de Atos

Atos mostra que a proclamação do Reino não desapareceu depois da ressurreição. Antes da ascensão, Jesus continua ensinando os discípulos acerca do Reino de Deus. No final do livro, Paulo aparece em Roma anunciando o Reino e ensinando a respeito de Jesus Cristo. Esse enquadramento literário é importante: a missão da Igreja permanece uma missão do Reino.

Ao mesmo tempo, Atos mostra que a expansão do Reino não ocorre por conquista territorial, mas por testemunho, pregação, formação de comunidades e ação do Espírito. Jerusalém, Judeia, Samaria e os confins da terra constituem a geografia da missão, não as fronteiras de um novo império político.

Reino, Israel e as nações

A relação entre Reino, Israel e gentios é uma das questões centrais do Novo Testamento. As promessas feitas a Israel não são descartadas, mas encontram em Cristo uma forma de cumprimento que inclui pessoas de todas as nações. A missão aos gentios não é um apêndice acidental: ela pertence ao movimento da promessa bíblica em direção ao alcance universal do governo de Deus.

Essa inclusão, porém, não significa que a história de Israel se torne irrelevante. O vocabulário do Reino, o Messias davídico, a aliança e a esperança profética são incompreensíveis fora dessa história. A Igreja não começa com uma religião nova sem passado; ela confessa que o Deus de Israel cumpriu suas promessas em Jesus.

Reino e aliança

O tema do Reino está intimamente ligado às alianças bíblicas. A criação estabelece a autoridade do Criador; a aliança com Abraão introduz promessa de bênção às nações; Sinai forma um povo santo; a aliança davídica focaliza a esperança em um rei; os profetas anunciam uma nova aliança acompanhada de perdão, Espírito e transformação.

Em Jesus, essas linhas convergem. O Rei é também o mediador da nova aliança. Por isso, Reino e salvação não podem ser separados: o governo de Deus é redentor porque o Rei trata o problema do pecado que sustenta a rebelião humana.

Reino e evangelho

No Novo Testamento, anunciar o evangelho e anunciar o Reino são atividades inseparáveis. O evangelho é a boa notícia de que Deus agiu em Jesus, cumprindo promessas, vencendo o pecado e inaugurando seu governo salvador. A mensagem não é apenas que indivíduos podem ter experiências religiosas privadas, mas que Jesus Cristo morreu, ressuscitou e foi exaltado como Senhor.

Por isso, a linguagem do Reino dá ao evangelho uma dimensão cósmica: a salvação pessoal está dentro de uma história maior em que Deus reconcilia, julga, restaura e conduz a criação à sua finalidade.

Reino e discipulado

O chamado de Jesus ao discipulado é inseparável do Reino. Seguir o Rei implica reorganizar prioridades, lealdades e relações. O discípulo aprende a confiar no Pai, perdoar, amar inimigos, servir em vez de dominar, buscar justiça e renunciar à pretensão de controlar a própria vida.

Esse caráter exigente impede que o Reino seja reduzido a uma ideia abstrata. O governo de Deus reivindica a existência concreta do discípulo: seu uso de recursos, sua palavra, sua sexualidade, suas relações, suas ambições e sua disposição para servir.

Reino e riqueza

Os Evangelhos relacionam repetidamente o Reino ao uso de bens. Jesus alerta para o perigo da riqueza como rival da confiança em Deus, chama à generosidade e ensina que tesouros terrenos não possuem valor último. O problema não é a existência de propriedade em si, mas a possibilidade de o dinheiro funcionar como senhor concorrente.

Viver sob o Reino exige reconhecer que os recursos pertencem, em última instância, ao Rei e devem ser administrados de acordo com amor, justiça, generosidade e responsabilidade.

Reino, poder e serviço

Jesus redefine também a maneira de compreender autoridade. Entre as nações, governantes podem exercer poder de forma dominadora; entre os discípulos, grandeza é associada ao serviço. O próprio Filho do Homem é apresentado como aquele que não veio para ser servido, mas para servir e dar sua vida.

Essa inversão não elimina autoridade, mas transforma sua finalidade. No Reino, poder é responsabilidade para servir, e não licença para autopromoção.

Reino e sofrimento

A presença do Reino não significa ausência imediata de sofrimento. O próprio Rei sofre, e seus discípulos são chamados a perseverar em meio à oposição. Essa realidade é coerente com a estrutura do “já e ainda não”: a vitória foi inaugurada, mas seus efeitos ainda não são universalmente visíveis.

O sofrimento cristão, portanto, não demonstra que o Reino fracassou. Ele pertence ao período entre a inauguração e a consumação, quando a Igreja testemunha um Rei crucificado e ressuscitado enquanto aguarda sua manifestação em glória.

Reino e esperança

A esperança cristã não repousa na capacidade humana de conduzir a história a um estado perfeito. Ela repousa na promessa de que o Rei retornará. Essa esperança impede tanto o desespero quanto a utopia.

O discípulo pode trabalhar por justiça, reconciliação e bem comum porque acredita que essas realidades correspondem ao caráter do Reino; ao mesmo tempo, sabe que nenhuma realização histórica elimina a necessidade da volta de Cristo e da renovação final.

O Reino e as diferentes posições milenistas

As tradições cristãs divergem quanto à interpretação do milênio de Apocalipse 20 e à ordem de certos eventos escatológicos. Pré-milenistas, amilenistas e pós-milenistas oferecem leituras distintas sobre a relação entre a era presente, o retorno de Cristo e o reino milenar.

Essas diferenças são relevantes, mas não devem obscurecer um núcleo compartilhado: Cristo reina, retornará, ressuscitará os mortos, julgará e conduzirá a história à consumação estabelecida por Deus. A doutrina do Reino é mais ampla que qualquer esquema milenista particular.

Reino e soberania de Deus

É necessário distinguir o Reino redentor inaugurado em Cristo da soberania universal de Deus. Deus nunca começou a ser soberano quando Jesus iniciou seu ministério. Ele sempre governa sua criação. O que chega de maneira nova em Jesus é a manifestação escatológica e salvadora desse governo dentro da história.

Essa distinção explica como a Bíblia pode simultaneamente afirmar que Deus já reina e orar para que seu Reino venha. A soberania divina é permanente; a manifestação redentora e consumada do Reino possui uma história.

Reino e adoração

A adoração cristã é também confissão de lealdade ao Rei. Ao reunir-se em torno da Palavra, oração, batismo e ceia do Senhor, a Igreja proclama que sua identidade não deriva em primeiro lugar de nacionalidade, classe, cultura ou poder, mas de Cristo.

A ceia possui ainda dimensão futura: ela olha para a consumação e para o banquete escatológico. Assim, a adoração cristã vive entre memória da obra já realizada e expectativa do Reino que virá em plenitude.

Uma chave para a unidade da Bíblia

O tema do Reino oferece uma das maneiras mais fecundas de perceber a unidade das Escrituras. A Bíblia começa com Deus como Criador e Rei, passa pela rebelião humana, pela formação de Israel, pela promessa davídica e pela esperança profética, alcança seu centro em Jesus e termina com a criação renovada sob o governo de Deus.

Por isso, Reino não é apenas uma doutrina entre outras. Ele conecta doutrina de Deus, antropologia, pecado, cristologia, pneumatologia, eclesiologia, missão e escatologia em uma única história redentora.

Avaliação editorial da Teopédia

A Teopédia entende o Reino de Deus como o governo soberano e redentor de Deus manifestado decisivamente em Jesus Cristo. O Reino foi inaugurado na primeira vinda de Cristo, avança na história por meio do evangelho e do Espírito e será consumado na volta do Rei.

Essa compreensão evita tanto reduzir o Reino a uma realidade apenas interior quanto identificá-lo com qualquer projeto político ou instituição humana.

Reino como horizonte da teologia bíblica

Tomado em conjunto, o tema do Reino impede que a fé cristã seja reduzida a experiências individuais desconectadas da história da redenção. O Deus que salva indivíduos é o mesmo que reivindica sua criação, forma um povo, estabelece o Messias, derrama o Espírito e conduz a história ao seu propósito. Por isso, falar do Reino é falar do alcance abrangente da obra de Deus em Cristo, do presente da missão e da esperança futura da Igreja.

Conclusão

O Reino de Deus fornece uma estrutura ampla para compreender a mensagem bíblica. Ele une criação, aliança, Messias, cruz, ressurreição, Igreja, missão e nova criação. A esperança cristã não é simplesmente escapar do mundo, mas ver o governo de Deus plenamente manifesto quando Cristo fizer novas todas as coisas.

Bibliografia básica

  • LADD, George Eldon. O Evangelho do Reino.
  • BEALE, G. K. Teologia Bíblica do Novo Testamento.
  • GOLDSWORTHY, Graeme. Pregando Toda a Bíblia como Escritura Cristã.
  • WRIGHT, N. T. Jesus e a Vitória de Deus.

Verbetes relacionados

Jesus Cristo; Messias; Nova Aliança; Igreja; Escatologia; Nova Criação; Grande Comissão; Evangelho.

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