A tradução bíblica procura expressar em outra língua o conteúdo dos textos escritos em hebraico, aramaico e grego que compõem a Bíblia. Essa tarefa envolve vocabulário, gramática, contexto, formas literárias e decisões sobre o texto que será traduzido. Seu objetivo não é simplesmente substituir cada palavra por uma palavra correspondente: línguas diferentes organizam significados de maneiras diferentes.
As traduções podem variar mesmo quando procuram trabalhar com seriedade e fidelidade. Algumas preservam mais de perto as formas do texto de origem; outras reorganizam expressões para comunicar seu sentido de maneira mais imediata. Gordon Fee e Douglas Stuart apresentam essas diferenças no capítulo sobre traduções de Entendes o que lês?. Luiz Antonio Giraldi, por sua vez, descreve como determinados princípios foram aplicados ao projeto brasileiro da Tradução na Linguagem de Hoje.
O que precisa ser traduzido?
Um texto comunica por palavras, mas também pela relação entre elas. Ordem, tempos verbais, construções gramaticais, repetições e recursos de estilo participam do significado. O contexto ajuda a determinar qual sentido de uma palavra está em uso e a que pessoa ou acontecimento uma expressão se refere. Conhecer uma lista de equivalentes de dicionário não basta para resolver todas essas relações.
Fee e Stuart distinguem língua-fonte, na qual o texto a traduzir está escrito, e língua-alvo, para a qual a tradução é feita. Também chamam atenção para o distanciamento histórico: diferenças de língua e de cultura que separam o leitor do ambiente do texto. A tradução precisa tornar possível a compreensão sem transformar a sociedade antiga em reprodução da sociedade do leitor (páginas 50–51 da obra).
Tradução e escolha do texto
Antes de traduzir uma passagem, é necessário definir qual forma de seu texto será utilizada. A transmissão manuscrita apresenta variantes, e as edições das línguas originais avaliam evidências para suas decisões. Essa atividade pertence à crítica textual. A tradução parte de um texto e enfrenta uma questão relacionada, mas diferente: como expressá-lo na língua de chegada?
A distinção explica por que duas versões podem divergir por motivos distintos. Em um caso, os tradutores trabalharam com formas diferentes do texto; em outro, escolheram palavras ou construções diferentes para representar a mesma forma. Pode haver ainda uma combinação dessas situações. Notas de rodapé e informações sobre a edição utilizada ajudam a identificar o problema antes que uma diferença seja atribuída automaticamente a erro ou intenção indevida.
O estudo da Septuaginta mostra que tradução e história textual se relacionam desde a Antiguidade. Entretanto, avaliar uma tradução contemporânea exige examinar suas decisões particulares. A importância histórica de uma versão não significa que todas as opções de tradução ou todas as tradições manuscritas ligadas a ela tenham o mesmo valor para cada passagem.
Equivalência formal
A equivalência formal procura conservar proximidade com palavras e estruturas do texto de origem, dentro do que a língua de chegada permite compreender. Pode preservar expressões recorrentes, metáforas e ligações verbais que ajudam o leitor a observar relações entre passagens. Essa orientação costuma receber a designação de tradução mais literal, embora “literal” possa ser empregado com sentidos imprecisos.
A proximidade da forma possui vantagens para estudo, mas pode gerar dificuldades quando uma expressão não comunica naturalmente em outra língua. Uma sequência de palavras inteligível no idioma de origem pode tornar-se obscura ou sugerir um sentido indevido em português. Preservar a aparência da expressão não garante, sozinho, que o leitor compreenda sua função no texto. Por isso, mesmo uma tradução formal precisa interpretar e reorganizar certas construções.
Equivalência funcional ou dinâmica
A equivalência funcional privilegia a comunicação do significado por formas usuais da língua-alvo. Os termos “funcional” e “dinâmica” aparecem relacionados nessa discussão, embora não devam ser tomados como definição perfeitamente uniforme de todos os projetos. A pergunta central é como uma expressão funciona no contexto e qual formulação permite ao novo leitor compreendê-la de modo adequado.
Isso pode envolver alterar a ordem de uma frase, explicitar uma relação gramatical ou substituir uma expressão idiomática por seu equivalente. Não significa autorizar a mudança dos acontecimentos históricos para adequá-los ao presente. Fee e Stuart distinguem a atualização de linguagem da preservação das informações históricas e factuais. Uma tradução desse tipo continua obrigada a representar o texto, e não a reescrever sua história segundo preferências atuais.
O método também apresenta um risco: ao tornar uma interpretação mais explícita, pode reduzir a percepção de outras possibilidades. Quando o texto permite mais de uma leitura plausível, a formulação escolhida pode resolver uma questão que continuava aberta na expressão original. O uso de notas e a comparação entre versões ajudam a tornar visíveis essas decisões. A facilidade de leitura não dispensa a avaliação de seu custo interpretativo.
Métodos como orientações, não caixas fechadas
Traduções raramente adotam uma solução idêntica em todas as passagens. Uma versão que conserva muitas estruturas pode empregar equivalentes funcionais em determinados trechos; outra, voltada à linguagem mais acessível, pode preservar termos tradicionais. O trabalho real envolve decisões locais, dentro de uma política editorial mais ampla.
Por isso, classificar uma versão oferece uma indicação de tendência, mas não substitui sua leitura. Uma comparação responsável examina o que foi preservado, explicado, reorganizado ou deixado em nota. Também distingue o propósito de uma edição: leitura pública, estudo detalhado, ensino a leitores iniciantes e divulgação ampla podem colocar prioridades diferentes em primeiro plano. Essas prioridades precisam ser avaliadas sem presumir que uma única forma de expressão atende igualmente a todas as situações.
Vocabulário e contexto
Uma palavra pode possuir vários sentidos, sem que todos estejam presentes em cada ocorrência. Traduzir sempre pelo mesmo termo pode conservar uma ligação verbal importante, mas também levar o leitor a aplicar o mesmo significado a usos diferentes. Traduzir cada ocorrência por expressões distintas pode facilitar o entendimento local, porém tornar menos perceptíveis certas relações internas.
Fee e Stuart discutem o caso de sarx, frequentemente representado por “carne”. Conforme o contexto, o emprego não se restringe ao tecido corporal. O tradutor precisa avaliar o sentido da passagem, e o leitor deve evitar construir uma definição única a partir da palavra portuguesa. O exemplo evidencia uma dificuldade geral: cada decisão pode ganhar clareza em um aspecto e perder transparência em outro (páginas 57–59 da obra).
Construções gramaticais e relações de sentido
Uma expressão com a preposição “de” pode indicar posse, origem, característica ou outras relações. Reproduzir automaticamente a construção do idioma de origem pode deixar o leitor sem perceber qual delas é relevante. Por outro lado, transformar a relação em uma explicação mais precisa exige justificar a interpretação escolhida.
Fee e Stuart usam construções do grego para mostrar como esse problema se manifesta. Em alguns casos, uma formulação que identifica a origem de uma ação ou de uma qualidade comunica melhor do que a reprodução da estrutura. A diferença não deve ser julgada apenas pelo número de palavras acrescentadas. É preciso perguntar se elas tornam explícita uma relação sustentada pelo contexto ou se introduzem uma explicação que o texto não permite.
Imagens, expressões e jogos de palavras
Metáforas e expressões idiomáticas não possuem necessariamente correspondência direta entre línguas. Um tradutor pode conservar a imagem e explicá-la em nota, ou empregar uma formulação que comunique sua função. A escolha depende do grau de compreensão possível e da importância da imagem para o conjunto. A linguagem figurada não é mero enfeite descartável; frequentemente participa da organização do argumento ou do poema.
Jogos de palavras podem ser ainda mais difíceis. Fee e Stuart apresentam Amós 8:2 como exemplo de relação sonora entre as palavras hebraicas referentes a frutos de verão e ao fim. Uma tradução pode representar com clareza os dois sentidos e perder a semelhança sonora. Outra pode tentar reconstruir o efeito por uma expressão diferente, correndo o risco de modificar algum detalhe. A nota permite explicar o recurso sem exigir que uma única frase reproduza tudo.
O problema também aparece em repetições e contrastes. Eliminar uma repetição para tornar a leitura mais fluente pode apagar um sinal literário relevante. Conservá-la sempre, sem considerar as estruturas da língua de chegada, pode gerar uma prosa desnecessariamente artificial. A análise da poesia hebraica ajuda a perceber por que forma e sentido precisam ser avaliados em relação, em vez de tratados como elementos inteiramente separados.
Pesos, medidas e dinheiro
Termos antigos de medida e moeda apresentam outra dificuldade. Conservá-los permite manter a informação histórica, mas pode deixar o leitor sem compreender a escala envolvida. Substituí-los por unidades modernas facilita alguma percepção, porém exige cuidado com diferenças de época, precisão e valor econômico. Uma equivalência monetária atual pode envelhecer rapidamente e sugerir comparações inadequadas.
Fee e Stuart discutem a combinação entre termos preservados e explicações em notas. Também observam que, em certas passagens, o objetivo envolve um contraste muito grande, e não uma tabela exata de conversão. A tradução precisa comunicar o efeito do texto e preservar informação suficiente para estudo. Reconhecer esse objetivo é mais produtivo do que exigir uma solução uniforme para todo termo antigo.
Um caso brasileiro: a Linguagem de Hoje
Giraldi descreve a adoção da equivalência dinâmica no projeto da Tradução na Linguagem de Hoje. As diretrizes incluíam linguagem usual no Brasil, atenção à concordância contextual, redução de regionalismos e preferência por construções claras. A comissão buscava representar a mensagem em português compreensível, mantendo o estilo do texto de origem quando isso não prejudicasse a compreensão (páginas 138–139 do PDF).
Seu relato também mostra a dimensão coletiva do trabalho: havia tradução de base, revisores, consultores e avaliação das formulações. A escolha de linguagem não era apenas um ato individual de simplificação. Exigia discutir o texto grego, o português, o público e as alternativas possíveis. O projeto oferece um exemplo histórico do que significa aplicar uma política de tradução a um conjunto extenso de livros.
O Novo Testamento na Linguagem de Hoje foi lançado em 12 de junho de 1973. Giraldi registra tanto a aceitação quanto reservas à linguagem empregada. A história evidencia que recepção e qualidade precisam ser distinguidas: uma tradução pode encontrar resistência por romper expectativas de estilo, enquanto seu uso amplo não encerra a avaliação de cada passagem. O exame deve acompanhar as decisões do texto e os objetivos declarados da edição.
Tradução, paráfrase e comentário
Uma paráfrase tende a reformular o conteúdo com maior liberdade de expressão e explicação. Isso pode contribuir para a compreensão, mas também fazer com que decisões do reformulador ocupem espaço maior na leitura. Além disso, há diferença entre trabalhar diretamente com as línguas de origem e reformular uma tradução já existente. A identificação do projeto e de sua base ajuda o leitor a entender o que está utilizando.
O comentário possui outra função: discutir contexto, alternativas e argumentos que não cabem no texto traduzido. Uma tradução não consegue carregar toda a investigação necessária para interpretar uma passagem. Acrescentar explicações indefinidamente ao corpo do texto pode desfazer a distinção entre representação da passagem e exposição do intérprete. Notas, introduções e comentários oferecem lugares próprios para essas informações.
Como comparar versões com responsabilidade
O primeiro passo é ler a passagem inteira, identificando gênero, assunto e conexão com o contexto. Depois, pode-se observar onde as versões diferem: vocabulário, construção, texto-base ou explicitação de sentido. As notas frequentemente esclarecem o motivo da divergência. Quando a questão é complexa, um comentário adequado ajuda a examinar o argumento, em vez de escolher apenas a frase que parece mais familiar.
Essa comparação não funciona como votação: uma interpretação não se torna correta somente por aparecer em maior número de versões. Traduções podem compartilhar tradições e decisões anteriores. Também não convém concluir que o português mais antigo é necessariamente mais preciso ou que a linguagem mais recente elimina toda dificuldade. A avaliação depende da relação entre formulação, texto de origem e contexto.
A hermenêutica bíblica torna visíveis os critérios envolvidos nessa leitura. Uma boa tradução oferece acesso ao texto, mas não dispensa interpretação. Conhecer seus métodos ajuda a utilizá-la com maior consciência: reconhecer os ganhos de clareza, perceber os elementos preservados e investigar decisões que permanecem abertas. A diversidade de versões pode favorecer o estudo quando é acompanhada por perguntas bem formuladas e atenção às evidências.
Bibliografia consultada
- FEE, Gordon D.; STUART, Douglas. Entendes o que lês? 3. ed. rev. e ampl. São Paulo: Vida Nova, 2011. Cap. 2, Ferramenta básica: uma boa tradução. Páginas 49–60 da obra, correspondentes às páginas 45–56 do PDF consultado; discussão de texto-base, equivalência, vocabulário, gramática, jogos de palavras e medidas.
- GIRALDI, Luiz Antonio. História da Bíblia no Brasil. 2. ed. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2008. Seções sobre diretrizes, comissão, lançamento e recepção do Novo Testamento na Linguagem de Hoje. Páginas 138–141 do PDF consultado.