Os targumim são traduções e reelaborações interpretativas, em aramaico, de livros da Bíblia Hebraica. Martin McNamara e Paul V. M. Flesher (2014) caracterizam o gênero targúmico por traduções do texto hebraico acompanhadas de material interpretativo adicional. O termo singular targum designa uma versão; o plural hebraico targumim reúne uma tradição textual diversa, formada e transmitida em diferentes contextos do judaísmo antigo e medieval. Sua importância decorre da combinação de tradução, explicação e memória interpretativa: ao apresentar textos hebraicos em uma língua de ampla circulação entre comunidades judaicas, os targumim também preservaram leituras teológicas e escolhas exegéticas que não aparecem da mesma maneira no texto hebraico.
Uma compreensão histórica adequada deve distinguir traduções orais em contextos comunitários, tradições escritas, manuscritos conservados e edições posteriores. Essas realidades se relacionam, mas não constituem uma linha simples e ininterrupta desde o período bíblico até os códices medievais disponíveis hoje. Também é necessário evitar a ideia de que todos os targumim pertencem à mesma época, adotam o mesmo método de tradução ou oferecem uma única “interpretação judaica” das Escrituras.
A língua aramaica e as práticas de tradução
O aramaico integrou a vida administrativa, comercial e cultural do Oriente Próximo por muitos séculos. Durante e após o exílio babilônico, diferentes variedades dessa língua ganharam importância entre grupos judaicos, sem eliminar imediatamente o hebraico de suas atividades religiosas e literárias. O próprio Antigo Testamento conserva passagens em aramaico, como partes de Esdras e Daniel, evidenciando um ambiente linguístico pluriforme.
A tradução das Escrituras para o aramaico responde ao desenvolvimento de práticas de interpretação e transmissão. Em certas tradições rabínicas, a leitura pública em hebraico era acompanhada de uma versão em aramaico por um intérprete, frequentemente denominado meturgeman. Não se pode, porém, identificar automaticamente toda leitura oral antiga com o texto de um targum conhecido por manuscritos posteriores. Práticas litúrgicas, prescrições rabínicas e testemunhos materiais pertencem a camadas documentais que exigem avaliação separada.
O vocábulo targum se relaciona ao campo da tradução e explicação. Em vez de supor que tradução e interpretação sejam operações inteiramente independentes, os textos mostram um continuum: alguns segmentos seguem de perto a sintaxe e o vocabulário da Bíblia Hebraica, enquanto outros incluem desambiguações, paráfrases, narrativas adicionais e formulações teológicas.
Tradução literal e expansão interpretativa
A tradução targúmica pode tornar explícito o sujeito de uma frase, esclarecer uma referência geográfica, explicar uma metáfora ou desenvolver a consequência de uma ação narrada. Em alguns casos, introduz materiais ampliados que revelam tradições exegéticas posteriores ao texto hebraico. Isso não significa que todas as intervenções tenham sido realizadas livremente ou sem método. Os tradutores trabalharam em tradições linguísticas e comunitárias que impunham limites, convenções e expectativas específicas.
Por exemplo, passagens em que Deus é descrito com ações ou características humanas podem receber versões que atenuam determinadas imagens antropomórficas. A extensão e a função dessas reformulações variam de obra para obra. Em outras passagens, a versão amplia um detalhe narrativo para relacionar personagens ou acontecimentos a debates religiosos que se tornaram relevantes em círculos judaicos posteriores.
A presença de expansão interpretativa deve ser analisada pelo confronto concreto entre o original hebraico, os manuscritos aramaicos e versões alternativas. Expressões frequentemente apresentadas como “targúmicas”, a exemplo de formulações sobre a palavra divina, não possuem valor teológico uniforme em todos os textos. É metodologicamente arriscado construir uma doutrina a partir de uma única tradução sem observar sua distribuição, contexto e tradição manuscrita.
Targum Onquelos e o Pentateuco
O Targum Onquelos é a tradição aramaica do Pentateuco que alcançou grande autoridade em amplos setores do judaísmo rabínico. Sua linguagem se caracteriza, em muitos trechos, por correspondência relativamente próxima com o texto hebraico, ainda que contenha escolhas interpretativas relevantes. A história de sua formação, a identificação do ambiente de transmissão e a data de determinadas camadas são matérias de investigação acadêmica.
A associação tradicional do nome Onquelos com a tradução não resolve, por si só, os problemas de autoria individual. O nome circula em relatos rabínicos com tradições próprias; os manuscritos conservados documentam momentos posteriores de transmissão. Por isso, muitos estudos preferem falar em desenvolvimento de uma tradição textual ao longo do tempo, evitando um retrato excessivamente biográfico de seu suposto tradutor.
O interesse de Onquelos é duplo. Primeiro, permite acompanhar como textos da Torá foram vertidos a uma forma de aramaico destinada a circular em ambientes judaicos. Segundo, fornece evidências do modo como comunidades de intérpretes lidaram com dificuldades semânticas, nomes divinos, legislação, narrativas patriarcais e passagens de difícil compreensão. Uma tradução próxima do original não deixa de ser uma testemunha histórica de escolhas exegéticas.
Targum Jonathan dos Profetas
O Targum Jonathan preserva uma tradição aramaica dos livros proféticos, tradicionalmente associados à coleção dos Profetas da Bíblia Hebraica. O nome não deve ser confundido com o chamado Pseudo-Jonathan, relacionado ao Pentateuco. A semelhança de designações é fonte frequente de equívocos em introduções superficiais à literatura targúmica.
Na tradução dos Profetas, a interpretação se manifesta em decisões sobre juízo, restauração, identidade comunitária, promessas e linguagem messiânica. Algumas leituras clarificam metáforas políticas e religiosas; outras apresentam expansões que vinculam a passagem bíblica a esperanças e debates mais tardios. A comparação de versões revela que o trabalho targúmico não pode ser descrito como simples substituição vocabular.
Os estudos de Paul V. M. Flesher e Bruce D. Chilton reservam atenção específica ao desenvolvimento de Jonathan e ao caso de Isaías, justamente porque o livro profético permite observar a interação entre tradução relativamente controlada e interpretatividade crescente. O uso de Isaías em ambientes judaicos e cristãos exige distinguir o sentido do texto hebraico, a versão targúmica e os modos de sua recepção.
Targumim palestinenses e Targum Neofiti
A expressão targumim palestinenses designa um conjunto de tradições pentateucais que compartilham características linguísticas e exegéticas, mas não formam um texto único e uniforme. Entre seus testemunhos se destacam o Targum Neofiti, materiais fragmentários e tradições registradas em diferentes manuscritos. Esses testemunhos podem preservar paralelos, expansões e formulações que divergem de Onquelos.
O Targum Neofiti tornou-se especialmente importante para a pesquisa moderna por ampliar o conhecimento dos targumim do Pentateuco e por exigir reconsiderações sobre sua história textual. Seu manuscrito conhecido é tardio em relação às origens propostas para muitas tradições, o que demonstra por que a data de um códice não se confunde com a data de cada interpretação nele registrada.
A multiplicidade de testemunhos também impede falar de uma “versão palestinense original” integralmente reconstituída. Fragmentos e leituras paralelas ajudam a identificar famílias textuais e tradições compartilhadas, mas a reconstrução demanda prudência. Flesher e Chilton organizam a discussão em torno das fontes, dos manuscritos, das relações entre Onquelos e versões palestinenses e da datação das tradições, mostrando que a investigação permanece aberta em diversos aspectos.
Pseudo-Jonathan e os targumim dos Escritos
O Targum Pseudo-Jonathan, vinculado ao Pentateuco, reúne numerosas ampliações narrativas e explicações que testemunham uma história complexa de composição e recepção. Durante muito tempo foi associado ao nome de Jonathan por uma tradição de designação que hoje precisa ser explicitamente diferenciada do Targum Jonathan dos Profetas. O conjunto de materiais incorporados aponta para a transmissão de tradições de diferentes momentos, o que torna inadequado atribuí-lo indiscriminadamente ao período do Novo Testamento.
Existem ainda targumim para livros pertencentes à coleção dos Escritos, como Salmos, Jó, Provérbios e outros. Eles não constituem uma série perfeitamente homogênea. Alguns refletem escolhas mais próximas do hebraico; outros incorporam extensa interpretação. A diversidade entre os textos, as formas de aramaico e os usos comunitários obriga a estudar cada obra em seus próprios termos.
Para o leitor da Teopédia, a organização do cânon judaico oferece um quadro útil de referência. O artigo sobre o Antigo Testamento e seus gêneros ajuda a identificar as coleções bíblicas nas quais esses testemunhos atuaram, enquanto o estudo sobre a formação do cânon bíblico apresenta questões distintas daquelas da tradução.
Datação: tradição antiga e manuscrito posterior
A questão cronológica está entre as mais difíceis da pesquisa targúmica. Materiais aramaicos e formas de tradução que circulavam em determinado período podem ter sido incorporados a compilações redigidas ou copiadas muitos séculos depois. Uma expansão aparentemente antiga também pode ter sido reformulada por intérpretes posteriores. Isso exige combinar história linguística, comparações textuais, alusões históricas e evidências manuscritas.
Não é correto tomar uma referência a personagem, festa ou crença como prova automática da data de toda a obra. Tampouco a presença de uma leitura semelhante em dois textos permite afirmar, sem demonstração, que um dependeu diretamente do outro. A circulação de tradições orais, práticas escolares, comentários e redações paralelas oferece explicações alternativas. O problema da datação é central para qualquer tentativa de usar targumim como testemunhas diretas da religião judaica anterior à destruição do Segundo Templo.
Targumim e judaísmo do Segundo Templo
Os targumim são relevantes para a reconstrução da história da interpretação judaica porque preservam formas de ler as Escrituras relacionadas a temas como identidade, lei, eleição, pureza, esperança e relação de Israel com outros povos. Sua relevância, entretanto, não depende de que todas as tradições tenham surgido durante o Segundo Templo. Parte da história da interpretação é posterior a 70 d.C. e se desenvolveu justamente em resposta à transformação da vida judaica depois da destruição do templo de Jerusalém.
A pesquisa histórica distingue o judaísmo do Segundo Templo das formas rabínicas que ganharam configuração mais definida em séculos posteriores, observando continuidades sem transformar um período em reprodução exata do outro. O artigo Judaísmo do Segundo Templo contextualiza os grupos e instituições anteriores e contemporâneos à formação do cristianismo, enquanto os targumim constituem um campo específico de análise textual.
Relações com o Novo Testamento: possibilidades e limites
Diversos estudiosos investigam conexões entre tradições targúmicas e a linguagem dos evangelhos, especialmente as formas de citação, paráfrase e interpretação das Escrituras. A proximidade de certas ideias pode ajudar a compreender um ambiente exegético compartilhado. Contudo, uma correspondência verbal isolada não comprova influência literária direta; é necessário avaliar cronologia, língua, gênero e mediações históricas.
Um exemplo recorrente é o debate sobre a palavra divina e possíveis relações entre formulações aramaicas e o prólogo de João. Há leituras que enfatizam analogias culturais e tradições interpretativas; outras consideram que a comparação não sustenta dependência textual demonstrável. Uma apresentação justa registra as hipóteses e evita converter semelhança conceitual em genealogia comprovada. O estudo da Teopédia sobre o uso do Antigo Testamento no Novo oferece um panorama de citações e alusões que auxilia nessa discussão.
Tradução, exegese e história da transmissão
Do ponto de vista da crítica textual, os targumim funcionam como testemunhos de recepção e tradução, não como substitutos diretos de manuscritos hebraicos. Quando uma versão aramaica diverge de uma forma hebraica conhecida, a diferença pode resultar de outro texto de base, de interpretação livre, de convenção tradutória ou de desenvolvimento redacional. O trabalho do pesquisador é testar hipóteses em vez de escolher automaticamente uma delas.
A comparação com a Septuaginta é especialmente instrutiva. Ambas são tradições antigas de tradução bíblica, mas diferem em línguas, corpora, cronologias, contextos sociais e métodos. A Septuaginta exige análise de tradições textuais gregas; os targumim, por sua vez, apresentam uma história aramaica e judaica própria. O estudo de princípios e limites da tradução bíblica ajuda a compreender essas escolhas sem dissolver a singularidade de cada tradição.
O valor histórico e teológico dos targumim
Os targumim documentam a capacidade das comunidades judaicas de manter a Bíblia Hebraica como centro da vida religiosa e, ao mesmo tempo, interpretá-la em contextos linguísticos mutáveis. Eles tornam visíveis decisões de tradução que frequentemente envolvem disputas sobre tradição, memória e identidade. Sua leitura exige conhecimento das várias formas de aramaico, das diferenças entre manuscritos e das interpretações acumuladas ao longo dos séculos.
Tratá-los como um único texto antigo empobrece seu testemunho; considerá-los apenas paráfrases sem interesse textual também seria um erro. Sua relevância está precisamente em permitir o estudo da transmissão da Escritura enquanto prática de leitura, explicação e produção histórica de sentido.
Como analisar uma passagem targúmica
O trabalho com um targum pode começar pela identificação do livro, do testemunho aramaico e da edição utilizada. A etapa seguinte consiste em comparar o texto com o hebraico disponível, procurando observar não apenas termos isolados, mas construções sintáticas, participantes da narrativa e mudanças no encadeamento dos acontecimentos. O pesquisador deve perguntar se uma diferença procede de uma versão textual alternativa, de uma forma idiomática exigida pelo aramaico ou de uma decisão interpretativa. Uma passagem mais desenvolvida pode conter expansão narrativa, mas também pode tornar explícita uma informação pressuposta na língua de partida.
A comparação entre dois targumim pode ser mais instrutiva do que a comparação de apenas um deles com uma tradução portuguesa da Bíblia. Onquelos e um testemunho palestinense podem oferecer soluções distintas para a mesma passagem, e a diferença informa sobre estratégias de transmissão e práticas de interpretação. Isso não significa que se possa transformar cada divergência em confronto entre grupos organizados. Muitas variações pertencem a tradições escriturísticas de circulação ampla, e sua função exata só é visível na leitura do contexto.
A presença de manuscritos medievais impõe ainda um problema editorial: uma edição crítica reconstrói as leituras disponíveis segundo critérios explícitos, mas o texto publicado pelo editor não pode ser confundido com um original único preservado integralmente. Citações acadêmicas responsáveis devem indicar qual targum está sendo citado e, quando necessário, qual edição, manuscrito ou tradição. A tradução moderna da passagem também deve ser identificada, para que o leitor consiga distinguir o texto antigo da interpretação de quem o apresenta.
O vocabulário da presença divina e a questão de memra
Uma das questões frequentemente discutidas na comparação entre literatura aramaica e textos do cristianismo antigo é a utilização de memra, termo relacionado à “palavra”, em determinados contextos targúmicos. Algumas interpretações cristãs de caráter apologético estabeleceram conexões amplas entre esse vocabulário e a linguagem do Logos no prólogo do Evangelho de João. A comparação é historicamente interessante porque diferentes tradições judaicas e cristãs empregaram linguagem de palavra, sabedoria e revelação para expressar relações entre Deus e o mundo.
No entanto, o uso targúmico de memra não deve ser automaticamente convertido em uma pessoa divina distinta nem tratado como equivalente integral à cristologia do Quarto Evangelho. Seu significado depende de construção, contexto, função tradutória e tradição textual. Investigações linguísticas distinguem casos de circunlóquio, formulações associadas à atividade divina e leituras interpretativas específicas. A semelhança lexical constitui ponto de partida para pesquisa comparada, não demonstração suficiente de dependência literária. Essa distinção protege tanto a especificidade das leituras judaicas quanto a compreensão dos desenvolvimentos cristãos.
Outro cuidado envolve o lugar das traduções aramaicas nas comunidades atuais. Sua importância para a história do judaísmo não autoriza a tratá-las como textos uniformemente normativos em todos os grupos religiosos. A tradição rabínica atribuiu prestígio particular a determinados testemunhos, e práticas de leitura diferiram conforme época, região e comunidade. A história editorial também conheceu transformações com a passagem de manuscritos para impressos, novas traduções e edições críticas modernas. Dessa forma, o pesquisador deve informar quando utiliza um testemunho como fonte para o período antigo e quando está descrevendo sua recepção medieval ou moderna. Essa distinção de períodos protege a pesquisa de anacronismos.
Bibliografia utilizada
- FLESHER, Paul V. M.; CHILTON, Bruce D. The Targums: A Critical Introduction. Leiden; Boston: Brill, 2011.
- MCNAMARA, Martin; FLESHER, Paul V. M. “Targum”. In: Oxford Bibliographies in Biblical Studies. Oxford University Press, 2014. DOI: 10.1093/obo/9780195393361-0187.
- SEFARIA. Targum: Onkelos, Jonathan, Neofiti e outras tradições textuais. Biblioteca de textos judaicos. Disponível em: https://www.sefaria.org/texts/Tanakh/Targum.